ASSUERO GOMES

Assuero Gomes da Silva Filho, nasceu em 1º de outubro de 1955. Cristão, católico, médico pediatra, exerce a sua profissão com amor e seriedade, dedicando-se ainda à pintura de telas a óleo e à literatura. Além dos livros publicados, Partindo de Emaús, Réquiem para um bispo , O profeta e a serpente e O Farol de Solidão, escreve regularmente artigos para publicações religiosas. É um dos fundadores do Jornal Igreja Nova e faz parte de seu Conselho Editorial.
"As situações de tensão fazem com que as nossas decisões nos coloquem sempre em conflito com a realidade, pois toda realidade é alicerçada no conflito." ASSUERO em Partindo de Emaús .
O Século X, foi o tempo em que ela mais desceu, chegando ao fundo da lama da miséria humana: papas usando de meios violentos como assassinatos, conchavos, concessões, conspirações, concubinatos, venda e uso de locais e objetos sagrados, para se manter no poder ; bispos indicados e nomeados pelos imperadores para serem verdadeiros príncipes do Império (muitos devem ter saudades deste modelo de Igreja), com direito total sobre seus territórios: direito criminal, direito canônico, civil, comercial, alfandegério, tudo concentrado em suas mãos; abades vivendo com suas concubinas, seus filhos e cães de caça, nos mosteiros riquíssimos, enquanto vários monges e a população, como sempre, sobrevivendo na miséria.
MAS APESAR DA ESCURIDÃO DO MOMENTO, NENHUMA NOITE É TÃO LONGA QUE APAGUE EM NÓS A ESPERANÇA DA LUZ DO AMANHECER...
Essa Luz, pequena e frágil começou a brilhar em Cluny, onde foi fundado o mosteiro na rica propriedade doada por Guilherme, o Pio que cansado dos prazeres da vida (talvez não suportasse o peso da consciência ou quisesse garantir um lugar no paraíso) a doou aos beneditinos sob a direção do abade Bernão e posteriormente de Odão seu sucessor. Este mosteiro como uma ilha de luz num oceano de lama, fundado em 900, teve um nascimento feliz, pois livre da tutela dos bispos e das autoridades civis e militares, respondia diretamente ao Papa; dessa liberdade pode crescer e florescer, e foi dele que surgiram os primeiros passos para resgatar nossa mãe que se encontrava totalmente perdida na escuridão da noite, nas esquinas dos palácios...
SÉCULO XI - NOSSA MÃE A IGREJA
O DESESPERO DA ADÚLTERA
SETEMBRO - 1991
Nossa mãe ainda está mergulhada até os ossos nesta aventura amorosa com os poderosos; aos poucos porém, ela vai sentindo que em troca do poder, do ouro e do luxo que os amantes lhe dão, lhes pedem em troca sua submissão total , até ao extremo do aniquilamento de sua própria personalidade. Para se Ter uma idéia, em 1016 o arcebispo de Narbona foi obtido para o filho do conde de Cerdanha, que pagou 100.000 xelins de ouro. A idade do arcebispo era de 10 anos.
Este século ainda é pleno de trevas, no âmago dele está o conflito entre a Igreja e seu amante, o rei (Henrique IV). Num jogo sujo de poder pelo poder, o casal brigou até quase às últimas conseqüências , chegando a cenas dignas de D. Quixote, como quando Henrique fica esperando sob a neve inclemente por mais de uma noite , o perdão de Gregório VII (retirada da excomunhão) sem o qual não teria moral nem respaldo para reinar.
É desse tempo também a separação definitiva(?) da parte oriental de nossa mãe: em 16 de julho de 1054, os legados pontifícios de Leão IX depõem a bula de excomunhão de Miguel Cerulário, Patriarca de Constantinopla, sobre o altar de Santa Sofia. Em retribuição o patriarca excomungou Leão IX. Estas excomunhões foram retiradas agora há pouco por Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras em 1965; antes tarde que ...
A simonia (venda de cargos e objetos sagrados) e o concubinato de padres(facilitado pelos bispos em troca de dinheiro) são fatos correntes.
Nossa mãe, em tão deplorável estado moral, começa a tentar se afastar da promiscuidade com o poder, e esboça os primeiros passos na separação do temporal e do espiritual. O papa sobressai em autoridade sobre os reis. Combate-se mais a simonia. O celibato passa a ser obrigatório. O extremo oposto de conduta aparece com os Caruxos e os Cisterciences. Começa a surgir uma forja onde será maleada uma nova moral. Prepara-se o espírito cavalheiresco para o próximo tempo, onde nossa mãe irá lançar-se na louca aventura das cruzadas. (Assuero Gomes)
NOSSA MÃE, A IGREJA - SÉCULO XII
A LOUCA AVENTURA DAS CRUZADAS
OUTUBRO/NOVEMBRO - 1991
Neste tempo, nossa mãe continua sua luta para se tornar mais independente dos poderosos, ou seja, mais poderosa que eles. Longe ainda de se tornar um modelo digno de Esposa de Cristo, ela procura seguir a reforma iniciada por Gregório VII.
Escandalosa no seu luxo ostensivo, enquanto prega a pobreza evangélica, atrai sobre si a ira santa dos reformadores que exigem dela uma vida de austeridade e desapego aos bens materiais principalmente por parte da hierarquia; mas nossa mãe não perdoa isso e então nasce no seu ventre o verme mortífero da Inquisição (1184), premiando com indulgências quem denunciasse os "hereges" e mandando perseguí-los.
Várias ordens contemplativas são fundadas como resposta à sede de vida mais cristã, inclusive em 1156 no monte Carmelo na Palestina fundou-se a primeira comunidade carmelita. Muito dessa época deve-se à vida e à obra de S.Bernardo, teólogo, místico e evangelizador.
A grande novidade deste tempo são as cruzadas. Empreendimento gigantesco para a época, foi idealizado no seio da Igreja com várias finalidades, tais como "conquistar" os lugares sagrados da Palestina, desviar os anseios dos povos que já esboçavam movimentos nacionalistas separatistas e na Europa, obrigar os reis a frear seus próprios programas expansionistas e religiosos, dar supremacia política ao papado.
Nesta miscelânia de interesses, foi levado aos povos do Oriente a cruz, a espada, a dominação e logo, logo, este movimento degenerou-se em simples expedições de rapina.
Vale notar também que é neste século que o condado do Porto é reconhecido pelo Papa como reino independente, tornando-se assim Portugal e Afonso I seu rei(1139). Em 1150 a Universidade de Paris é fundada.
Enquanto nossa Mãe começa a sair dos séculos da escuridão (já saiu?), na Terra de Pindorama vivem tranqüilos e livres outros filhos de Deus que na sua inocência de séculos, nem imaginam o que a História lhes reserva daqui a alguns séculos ,empurrada pela mão de nossa mãe, a Igreja!
NOSSA MÃE , A IGREJA - SÉCULO XIII
O TEMPO DE FRANCISCO ...
DEZEMBRO 91
O século XIII é um dos raros momentos da História; encruzilhada do tempo, é daqueles lugares onde sentimos a ação de Deus de uma forma quase palpável. O esposo socorre a esposa ajudando-a a sair dos séculos da escuridão.
No auge do esplendor, do luxo, do poder do papado, Jesus envia à sua amada, um irmão menor, com a seguinte missão: "Francisco, restaura a minha Igreja!"
Não só Francisco, mas como se não bastasse o pobrezinho Assis, enviou também domingos, Clara, Tomás de Aquino, Luís rei de França, e por que não Inocêncio III?
A aventura das cruzadas continua, inclusive com o envio de crianças e adolescentes. Brilha a cultura com a Universidade de Paris, onde se faz a leitura teológica com os olhos de Aristóteles (Alta Escolástica), as ordens mendicantes suprem o desejo daqueles que querem levar uma vida mais evangélica, na França um santo é Rei.
Assim enriquecida com filhos de tal porte, nossa mãe consegue manter a supremacia do Papa em relação aos poderes temporais, mas começa a explodir em cada ponto da Europa movimentos de separação nacionalistas.
A "santa" Inquisição agora já é um monstro crescido e bem vivo dentro da Igreja: os hereges devem ser queimados vivos dentro de 8 dias a partir da condenação. Os que se arrependem têm a pena mudada para prisão perpétua. Durante o processo não há nenhuma assistência jurídica para o réu, nem este pode apelar para outras instâncias.
Todas as conversas sobre fé, entre leigos, em público ou em particular, são proibidas, sob pena de excomunhão.
Assim nossa mãe segue navegando nas águas da História, qual barco que transporta lado a lado Francisco e o luxo da corte papal, envia crianças para morrer nas cruzadas e dá o título de "Doctor Angelicus" a Tomás, proibindo os judeus de saírem de suas casas na Semana Santa e no mesmo Concílio (Latrão) reafirmando a transubstanciação do Pão e do vinho na Eucaristia.
CAI O PAPA
JANEIRO - 1992Nossa mãe a Igreja através da inquisição, perseguiu e queimou milhares de judeus e também "hereges"que tinham idéias interessantes como estas: "Cristo e os Apóstolos não tinham nenhum bem pessoal nem mesmo uma propriedade comum". "O direito da Igreja consiste naquilo que a maioria dos Bispos aprova, ( mesmo contra o Papa) e naquilo que a maioria dos fiéis aprova ( mesmo contra os bispos)". "O Órgão supremo da Igreja é o concílio universal, onde não só a hierarquia mas também os leigos devem ser representados".
É deste século o início da "Guerra dos Cem Anos" entre Inglaterra e França ( 1339 - 1453 ), e a peste Negra da Europa que dizimou um terço da população da França e da Alemanha, sem contar com o restante do continente.
Mas nem só de desgraça é constituído esse tempo, pois Jesus não deixa sua Esposa naufragar, filhas como catarina de Sena e Brígida da Suécia ajudaram a navegar a barca nestes tempos tão conturbados.
Do outro lado do mundo, floresce uma civilização com cultura e organização comparáveis aos antigos egí[cios e romanos: acorda astecas, esconde teu ouro, tua prata e teus monumentos, guarda tua cultura, pois a História te reserva uma triste surpresa no próximo século.
EXPLODE A RENASCENÇA
MARÇO - 1992Período de rara efervescência, forja-se neste tempo o surgimento de uma nova concepção do Homem. Nossa mãe, a Igreja, na pessoa de seus Papas, cada vez mais está embevecida pelas artes e pelo luxo de uma era de esplendor e fausto. Verdadeiros príncipes, pouco importando-se por assuntos teológicos, preocupando-se mesmo em combater os reformadores que lhes apontam o distanciamento do Evangelho.
Na verdade, solidifica-se cada vez mais a Inquisição, com especial menção à da Espanha, alçada às primeiras potências mundiais pela união de Castela e Aragão, com o casamento dos "Reis Católicos" Izabel e Fernando, para servir de proteção à coroa e à Igreja, resultado: entre 1483 e 1498, houve cerca de 9.000 execuções, principalmente de Judeus, inclusive crianças. Sua expulsão se deu em 1492, complementada com a de Portugal em 1947.
Neste afã de purificar a religião e manter a supremacia da Igreja queimaram Joana D'Arc viva em Ruão, em 30 de maio de 1431. Arrependida, a Igreja canonizou-a em 1920 (os que são perseguidos serão exaltados).
Queimados foram também João Hos e Savonarola, enquanto o Papa Alexandre VI dava festas no Vaticano para casar seus filhos ilegítimos, Lucrécia Borja e Cesar Borja com príncipes Florentinos.
O fim do Império Romano no Oriente é marcado pela tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453. A Rússia se torna um Estado Nacional transformando-se numa Terceira Roma, centro da Igreja Ortodoxa.
Em 1492 Colombo inicia a invasão das Américas.
Assim caminha nossa Mãe; é importante conhecê-la para melhor amá-la e saber que o Esposo jamais a abandonou, em toda sua caminhada, e estará com ela até os confins do Tempo...
NOSSA MÃE, A IGREJA - SÉCULO XVI
O TEMPO DE LUTERO
ABRIL - 1992Por que abençoastes veladamente Cortès no genocídio dos astecas ou a Pizarro na destruição dos Maias ou ainda, a Cabral na invasão desta terra Tupi?! Por que não escutas Las Casas, cujo grito indignado por ti clama desde há quinhentos anos?!
Eis que a mãe África geme de dor pela desgraça da deportação e morte de seus filhos mais jovens!
Nossa Mãe, a Igreja continua sonhando com as artes da Renascença e não percebe que há um clamor intestino por mudanças. A História já colocou lenha, o vento sopra e o caldeirão da humanidade borbulha, só os papas não vêem, pois preocupados em decorar as capelas sixtinas da vida, cercam-se de Michelângelo, Bramante, Rafael e tantos outros luminares da arte, no entanto pouco entendidos em teologia.
O Esposo no entanto, suscita um profeta, filho legítimo da Igreja, Lutero. Podemos afirmar duas coisas deste monge, apesar de suas limitações históricas: fosse hoje, Lutero seria canonizado, o que acontecerá dentro dos próximos 200 anos (não aumente nada a ele, mas dignificará mais a Igreja), a segunda é que Lutero fez mais bem à Igreja que todos os papas da Renascença juntos, pois ele foi sem dúvida um dos principais catalizadores da Reforma Católica que tanto nossa mãe precisava.
Este século, foi mais uma daquelas encruzilhadas do tempo, onde há um somatório de acontecimentos gestados através da História e que vêm à luz de maneira às vezes abrupta. É deste tempo:
O Império de Carlos V ("o reino onde o sol nunca se põe") que acabou seus dias num convento, triste por achar que não teve competência suficiente para manter a unidade do império e da religião; a explosão do Humanismo (Henrique VIII), o Zwinglismo, o Calvinismo, com a teoria da predestinação que serve de sustentação teológica ao capitalismo; a fundação da Companhia de Jesus por Inácio de Loyola, tornando-se uma das ordens mais ativas, influentes, poderosas e que mais serviços prestou à Igreja até os dias de hoje; Tereza de Ávila e João da Cruz, reformadores do Carmelo e grandes místicos; o Concílio de Trento.
Do Concílio, podemos dizer que foi um dos mais importantes para a história da Igreja. Para a época, foi uma resposta às reformas exigidas pelos cristãos e precipitadas pelos irmãos protestantes. Ele agiu no sentido de regulamentar os deveres dos Bispos, prover meios para o aprendizado dos padres através dos seminários diocesanos, debateu sobre problemas levantados por Lutero, como a justificação pela fé, os sacramentos, as fontes da fé (Escrituras e Tradição), pecado original, etc...
Foi um avanço para a época, e se não foi uma resposta totalmente satisfatória para os problemas de então, foi um esforço da Igreja para retomar o Caminho.
O problema é que hoje em dia, muitos bispos e padres se fixaram neste modelo de Igreja e se recusam a aceitar que também o Concílio Vaticano II é inspirado pelo Espírito Santo, respondendo aos anseios do Homem do Século XX, onde uma Igreja partilhada, de modelo não piramidal, mas de decisões co-participadas, tendo abolido as barreiras hierárquicas opressoras, onde todos sejam Povo de Deus, com funções e carismas diferentes é claro, mas sem distinção de autoridade, poder ou privilégios. Esta é a Esposa que Cristo almejou e que nasceu em Pentecostes, e é nesse vestido que certamente celebrará as Núpcias verdadeiras e definitivas com o Esposo!
NOSSA MÃE, A IGREJA -
SÉCULO XVII ( PARTE I)PO
R QUE OLHAR O PASSADO? MAIO/JUNHO - 1992Todo ser humano possui lugares dentro de si que de uma maneira ou de outra se comunicam, desse fluxo surge então o movimento que liberta e o torna mais pleno de vida.
Podemos constatar quatro lugares onde guardamos nosso ser. O primeiro é aquele em que temos consciência de tudo e que também nossa cmunidade conhece. O segundo é aquele onde temos consciência porém não divulgamos e portanto a comunidade não conhece. O terceiro lugar, é onde a comunidade conhece de nós mesmos porém nós não o conhecemos; há ainda o quarto lugar, este mais escuro e misterioso, onde ninguém conhece, nem nós mesmos.
Somente fazendo o percurso, onde o conhecimento traga das fontes destes lugares de sombra para a luz plena do saber partilhado, é que o homem pode se libertar dos seus grilhões e fluir livremente para Deus.
Com nossa mãe não pode ser diferente.
Somente quando a Igreja retomar todo o seu passado, analisá-lo, se conscientizar dos seus erros (pois não é feita de anjos, mas de homens, graças a Deus) e torná-los claros e conhecidos de si e da comunidade, poderá caminhar livremente, reconciliada com a História (não é esse o processo de Reconciliação proposto por Jesus?) rumo ao Reino, da qual é depositária de gérmen.
Há quem ache mais cômodo invocar a sacralidade da estrutura sociológica da instituição e esquecer a História, pois esta questiona incessantemente àquela.
Com efeito, os frutos que a Igreja tem gerado para a humanidade são incomensuráveis e esta é a prova mais viva da ação do Espírito do Esposo que a guia nas adversidades como também nos momentos mais cristãos; no entanto cabe a todos os seus filhos , orar, agir, atuar, denunciar, questionar, interpelar, enfim, dentro de suas possibilidades e carismas, trabalhar para que ela seja cada vez mais o modelo de Esposa desejada por Cristo.
Eis o nosso trabalho. Eis a nossa oferta a esta tão amada mãe.
O século XVIII encontra nossa mãe, a Igreja viajando para além-mar...
NOSSA MÃE, A IGREJA -
SÉCULO XVII ( PARTE II )UM
TEMPO DE JESUÍTAS JULHO - 1992O século XVII encontra nossa mão, a Igreja, navegando para além-mar, em busca de levar a fé, mesmo de mãos dadas com o conquistador, ao Novo Mundo e ao extremo Oriente.
A Europa com seus conflitos sangrentos entre católicos e protestantes (leia-se, entre Império e Monarquias), vê seus estados rumo ao absolutismo, com o soberano cada vez mais independente em relação ao Papa chegando inclusive a nomear tutelados para os cargos eclesiásticos. Portugal é o exemplo clássico com o sistema de padroado (que tanto mal fez a Igreja no Brasil); a Espanha cada vez mais independente; a França com o galicanismo (modelo de igreja particular de um país); a Inglaterra com o anglicanismo e a Alemanha dilacerada entre católicos e protestantes.
É a religião totalmente subordinada aos interesses políticos de cada Estado, o cardeal Richelieu por exemplo, fazia acordo com o rei Gustavo Adolfo (protestante) da Áustria ao mesmo tempo que perseguia implacavelmente os Huguenotes na França.
A Igreja se sente cada vez mais enfraquecida no poder e começa a tomar consciência de que sua sobrevivência depende menos da força que de sua fidelidade a Cristo. A reforma interna começa a aflorar, com uma atuação no sentido de reforçar a autoridade do Papa (diga-se que durante este período, os Papas foram na sua maioria homens dignos e preocupados com a Igreja), com o surgimento de movimentos e grupos dedicados ao serviço dos pobres e marginalizados principalmente na Europa, ainda com a formidável atuação da Companhia de Jesus (Jesuítas), que em vez de armas, optaram pela reconversão daqueles que tinham se tornado protestantes usando o método do ensino do mais alto nível em todos os locais da cristandade (letras, artes, filosofia, teologia, moral, etc.) bem como por métodos avançadíssimos para a época, na evangelização das Américas e do Oriente (respeitando a cultura dos hindus e dos chineses, tentando proteger os indígenas, nas reduções guaranis). Os jesuítas tinham mais liberdade do que as outras ordens religiosas pois dependiam diretamente do Papa, p que não impediu que setores conservadores da Igreja condenassem esses métodos missiológicos (não há nada de novo sob o sol) e tentassem acabar com a própria Companhia no próximo século.
Sobre a atuação de nossa Mãe na América Latina e especificamente no Brasil, em outra oportunidade trataremos de maneira mais detalhada.
São deste século, a Guerra dos Trinta anos91616-1648), a primeira migração dos ingleses Puritanos, os Pais peregrinos para a América do Norte (1620), a abjuração de Galileu Galilei sob tortura da Inquisição, da sua teoria do movimento da terra; Crowell executa o rei Carlos I e proclama a República da Inglaterra (1649-1660); Descartes inaugura o racionalismo que separará razão e fé; o Jasenismo; Pascal critica os Jesuítas na forma de visão mais larga destes em relação ao Homem, Vicente de Paula e seu magnífico trabalho com os abandonados da sociedade, Pedro de Claver e seu trabalho com os negros africanos escravizados na Colômbia; a fundação dos Trapistas na Normandia; Francisco de Sales com seus trabalhos e humilde força de evangelização, Madre Chantal e tantos outros!...
A impressão mais forte que este século nos deixa contudo, é a germinação do "Iluminismo" como uma reação de uma civilização já desencantada com a religião e o governo, com o papado e o rei, uma reação que gerou um fruto tão amargo à nossa mãe, e que só agora ao apagar do século XX, demonstra que sua "iluminação" não era tão clara assim e que também não saciou a fome do homem, nem de pão, nem de Deus.
NOSSA MÃE, A IGREJA -
SÉCULO XVIIIA REVOLUÇÃO
AGOSTO - 1992Nossa mão, a Igreja, neste período sofreu um tempo de penitência! Rico de sofrimento, mas repleto de pedagogia.
Sem dúvida a cena da História neste período é dominada pela França, onde floresceram os ideais democráticos mas também onde a ditadura da Razão fez tantas vítimas, aliás como todas as ditaduras.
A Igreja está cada vez mais subordinada ao Estado de cada país, a tal ponto que nomeações de bispos e padres são indicadas por ele. O sinal patognomônico (sinal que indica com certa exatidão uma patologia) deste fato é o que aconteceu com a Companhia de Jesus, que em 1749 contava com 22.600 membros, 39 províncias, 669 escolas superiores (as PUCs da época), mantinha influência direta sobre praticamente todos os príncipes, mas pela pressão do "Iluminismo" ela foi expulsa de Portugal (e Brasil) pela campanha do Marquês de Pombal, em 1762 da França, em 1767 da Espanha e Nápoles até que finalmente em 1773 o Papa Clemente XIV cedendo às pressões dos reis borbons (a infalibilidade papal só se aplica à matéria de fé, mesmo assim, ele antes auscultava o colegiado episcopal) declara a supressão da Companhia de Jesus (bula Dominus ac Redemptor). Apenas a Rússia (Catarina II) e a Prússia (Frederico II) não obedeceram o decreto papal e os Jesuítas puderam sobreiver dentro destes territórios. É a nossa mãe flagelando os próprios filhos para agradar os poderosos (vide Leonardo Boff e Reginaldo Veloso).
A partir do Deísmo, que afirma a existência de um Deus criador, mas que não interfere na história dos homens (esse é o ideal para os governantes, ditadores, os ricos e os poderosos), a Igreja foi chicoteada por Voltaire, pelos príncipes e parlamentos, suas ordens contemplativas perseguidas, os bens confiscados e finalmente a 14 de julho de 1789 com a tomada da Bastilha e a eclosão da Revolução Francesa, ela foi jogada na piscina de sangue junto com seus amantes, os reis e os poderosos: "enforcar o último rei com a tripa do último padre".
Os grandes avanços que a Revolução Francesa trouxe para a humanidade em geral são conhecidos por todos, mas estes avanços não chegaram ainda a imensa maioria dos povos pobres e oprimidos. Para nossa mãe foi um tempo de muito sofrimento, mas penso que ela começou a germinar a idéia que tomou forma no Concílio Vaticano II nesta época, que também é uma época que marcou de forma definitiva para os países do primeiro mundo o final do espírito da Idade Média. Enquanto isso, no Nordeste açucareiro, os trabalhadores da cana esperam que as condições de seus colegas europeus nos idos 1200 cheguem rápido...
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SÉCULO XIX, ( PARTE I ) OS AMORES DE NAPOLEÃO SETEMBRO - 1992Depois do banho de sangue que nossa mãe tomou na piscina do Iluminismo juntamente com seus ex-amantes, ela vislumbrou no pequeno corso, Napoleão, alguém capaz de lhe salvar dos apuros que a História havia reservado (sempre procurando aventuras amorosas, quando o próprio Esposo lhe bastaria).
Desse
idílio, digno de qualquer folhetim barato, nossa mãe ainda saiu mais pobre
moralmente e financeiramente:
1801 - Noivado entre Napoleão e a Santa Sé. O noivo permite a liberdade de culto em contrapartida a noiva retira todos os bispos e aceita os indicados pelo noivo.
O
noivo exige como dote, todos os bens confiscados da noiva pela Revolução, mas
se propõe a pagar um "salário" conveniente aos clérigos.
1802
- O noivo acrescenta 77 artigos no "contrato de casamento", que
subordina ainda mais a noiva, proibindo-a de publicar documentos, realizar sínodos
sem a prévia autorização do Imperador, além de introduzir um catecismo único
sob o controle do governo.
1803
- O noivo confisca a quase totalidade dos bens da noiva na Europa.
1804
- Finalmente o casamento. Em 2 de dezembro, na Catedral de Notre-Dame, Pio VII
celebra-o. O noivo se auto-proclama imperador dos franceses.
1809
- Primeira briga séria do casal: O marido toma os "Estados Pontifícios"
para o império francês. A mulher irritada, chama-o de "ladrão do patrimônio
de S. Pedro" (ou será do patrimônio de Constantino?). O marido afasta o
papa para Savona.
1815 - Fim do casamento. O marido derrotado, nossa mãe se volta aos antigos colaboradores tentando reaver os bens perdidos, mas depois deste romance nunca mais será a mesma....
NOSSA MÃE, A IGREJA -
SÉCULO XIX ( PARTE II ) A FÁBRICA OUTUBRO- 1992Depois do romance com Napoleão, nossa mãe procurou se voltar para os antigos amores: os reis da "Santa Aliança", que de santa pouco ou quase nada tinham, na tentativa de se livrar dos pesadelos da Revolução Francesa, do Iluminismo, do Liberalismo (nada de novo sob o sol) além de lhe ver restituídos os "Territórios Pontifícios", que diga-se de passagem, o foram, por pouco tempo.
Mergulhada num conflito onde se vê numa perda de poder temporal como nunca dantes havia experimentado desde Constantino, ainda tendo que conviver com uma verdadeira repugnância por parte da grande massa burguesa (se é que existe massa burguesa), cada vez mais iluminada por Voltaire, nossa mãe fica ao lado de uma aristocracia decadente que a aceita apenas por "bons modos" e por saudosismo.
Nesse tempo explodem as grandes congregações religiosas, desta vez também em comunhão com leigos e realmente se dedica à assistência de idosos, crianças, jovens e marginalizados, além de despertarem novamente para missões em povos longínquos (da Europa) como África, China, Japão, Canadá, Estados Unidos e América Latina.
Apesar deste avanço, para nossa mãe, conquista social é caridade e patrão assiste o pobre dando-lhe emprego e o empregado deve obediência e agradecimento ao patrão, e imbuída nesse pensamento, nossa mãe não viu o homem se tornar uma peça descartável de "modernas" máquinas da Revolução Industrial (haja modernidade).
Já no finalzinho deste século (1891) Leão XIII dá ao mundo sua encíclica Rerum Novarum, a qual esperamos ardentemente chegue ao Brasil e seja lida pela FIESP, pelos Usineiros, pelos grandes latifundiários, pelos nossos políticos e deslumbrados do Neoliberalismo e da MacDonald's.
NOSSA MÃE, A IGREJA -
SÉCULO XX,NOSSA MÃE HOJE
NOVEMBRO - 1992
São 20 séculos, são 20 passos, 20.000 espinhos para 20 rosas. É a metade do tempo de 40 dias no deserto com o Esposo, ou meio caminho de um êxodo percorrido ou a percorrer? Quem vejo no meio da estrada, meio perdida, meio encontrada, nesta encruzilhada de vida?
Eis uma senhora, provecta na idade e aristocrática nos modos, com medo bastante de perder o restinho de seu luxo do passado, dos tempos do amante rico (Constantino), mas ainda guardando em si uma juventude insuflada pelo sopro do Esposo, capaz de fazê-la ousar caminhar para o futuro em busca do Reino.
Este século está repleto de mudanças, tão bruscas e violentas, que o que antes passava em dezenas de anos, nele custa apenas alguns dias ou horas. Nossa mãe acompanha atônita estas mudanças.
Cada vez mais pobre, restringindo seu poder temporal ao diminuto Estado do Vaticano e distanciando-se da administração política dos países, ela viu eclodirem duas guerras mundiais, ela viu países e Impérios surgirem riquíssimos das indústrias bélicas, ela viu o proletariado tomar o poder de uma grande nação, a Rússia (talvez o maior acontecimento histórico a nível do inusitado) e no mesmo século ela vê a deteriorização deste poder em ditadura de Estado se desmoronar, viu e ainda vê a ditadura do Capital idolatrar o lucro e consumir vidas humanas, de povos inteiros, com avidez de ricos, cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais vivendo como inferiores aos animais destes ricos.
Dotada de uma sucessão de papas dignos como nunca houve dantes na Igreja, ela soube se apresentar a um mundo cada vez mais descrente ou mesmo indiferente a Deus, como defensora dos direitos humanos e promotora da paz.
Nossa mãe deu um passo gigantesco em direção ao Reino, com o Concílio Vaticano II, e pela primeira vez em sua longa história, um grupo de bispos fez uma opção decidida e concreta pelos pobres, especialmente os da América Latina (vide Medellin, Puebla e Sto. Domingos), devendo-se salientar o papel decisivo do nosso patriarca Dom Helder Camara.
Nossa mãe vive atualmente, como sempre viveu, na eterna dualidade e tensão entre o passado e o futuro (o que é o presente, senão o instante mágico e tenso onde essas duas forças com suas contradições se encontram?). Bebe da teologia clássica e se embriaga com a teologia da libertação, se escandaliza com a liberação sexual, mas convive com o escândalo da miséria, não permite ainda que os seus sacerdotes se casem mas não apresenta uma resposta às angústias do homem moderno e tantas são as contradições, que quanto mais a conhecemos, mas a vemos humana, tão frágil e bela, como intolerante e auto-suficiente, opressora e oprimida, mas humana. Tão humana, que se não fossem seus muitos pecados, poderíamos até achá-la parecida com o Esposo Jesus.
NOSSA MÃE, A IGREJA -
SÉCULO XXI, UM OLHAR PARA O FUTURO ... DEZEMBRO - 1992Revestida de nova força, a velha senhora continuou a caminhada rumo ao Reino. No final do século passado, com a renúncia do Papa por motivo de saúde, assumiu Paulo VII retomando a linha do Concílio Vaticano II, recentemente corroborada pelo Concílio Ecumênico de Angola I.
Neste tempo, as fronteiras que dividiam os países e as nações, estão sendo motivo de estudos da História, pois praticamente todas foram abolidas, tendo tomado os seus lugares as grande corporações produtivas que dividiram o mundo em dois blocos: "os que têm acesso ao Grande Livre Mercado" e os "que não têm".
O Vaticano tornou-se um Museu Internacional de Religião, e os povos pobres ficam perplexos ao imaginar há algum tempo atrás, que os "religiosos" pudessem pregar a doutrina do "pobre de Nazaré" morando em tamanho luxo e ostentação; aliás, vale salientar que nossa mãe se tornou peregrina, as nunciaturas foram extintas, o Papa ora está na América Latina ora se encontra na África, outras vezes nos lugares paupérrimos da Ásia, sem morada fixa. Os bispos são eleitos pelas comunidades. O celibato tornou-se opcional. A liturgia, a doutrina, a moral, respeita a cultura de cada povo; a missiologia se preocupa apenas em iluminar estas culturas com a luz da experiência Pascal.
O Esposo Jesus, é celebrado em todos os lugares onde o povo não tem acesso ao "Grande Livre Mercado"; ao contrário, nos outros países (que digo? Já não há mais países) a lembrança e a memória d'Ele foi quase totalmente apagada, por outra indiferença!
A nossa mãe convive pacificamente com outras religiões e atualmente é um sinal forte da expectativa escatológica para o próximo século entre os deserdados da terra, talvez quem sabe as bodas definitivas do Cordeiro com nossa Mãe não esteja tão longe...
BIBLIOGRAFIA
Frohlich Roland - Curso básico de História da Igreja, Ed. Paulinas, 1987
Pierrard Pierre - História da Igreja, Ed. Paulinas, 1983
Durant Will - César e Cristo, Ed. Record, 1990
- A Reforma, Ed. Record, 1957
Bíblia de Jerusalém e Edição Pastoral - Ed. Paulinas
NT da Tradução Ecumênica da Bíblia - Ed. Vozes
E AGORA, JOSÉ?
DEZEMBRO - 1991
Na canção o poeta e como o cego, enxerga na escuridão; diria mais, o poeta é profeta também, pode catalisar mudanças que atuem no conflito e gerar uma nova realidade.
Qual visão de Ezequiel, a do Espírito soprando sobre a multidão de ossos ressequidos e dando-lhes novo alento de vida, façamos nossas, juntamente com as ossadas das pastorais destruídas, com as ruínas do Serene, com as bancas vazias do Iter, com a saudade dos padres afastados, com o vazio de quatro anos sem nenhuma diretriz pastoral, com a ausência da Justiça e Paz, com a tristeza da Virgem Imaculada Conceição no seu pranto mudo, com o balido das ovelhas sem Pastor, façamos nossas, de todos nós, as palavras do poeta-profeta, com licença de Drumond:
E AGORA JOSÉ?
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou,
e agora José?
E agora você? Você que é sem nome,
Que zomba dos outros,
Você que faz versos, que ama , protesta?
E agora , José?
Está sem mulher, está sem carinho, está sem discurso,
Já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode,
A noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio,
Não veio a utopia e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou,
E agora José?
E agora José? Sua doce palavra
Seu instante de febre, sua gula e jejum.
Sua biblioteca, sua palavra de ouro, seu terno de vidro,
Sua incoerência, seu ódio e agora? Com a chave na mão,
Quer abrir a porta, não existe porta;
Quer morrer no mar,
Mas o mar secou;
Quer ir para Minas,
Minas não há mais .
José , e agora?
Se você gritasse , se você gemesse, se você tocasse a valsa vianense.
Se você dormisse , se você cansasse, se você morresse...
Mas você não morre, você é duro, José!
Sozinho no escuro qual bicho do mato sem teogonia,
Sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope,
Você marcha, José!
JOSÉ, PARA ONDE?
Da poesia de Carlos Drumond de Andrade , "E AGORA , JOSÉ?"
É comum se ouvir atribuíções das ações humanas como "DESÏGNIOS DE DEUS". Nós dizemos "humanas"porque diferem daquelas efetivamente realizadas por Deus, e a diferença fundamental está nas virtudes Divinas que são básicas para suas ações de jsutiça, entendimento e liberdade, enquanto que nas ações humanas predominam a autoridades, a inconseqüência e a injustiça.
Dentro desta concepção não enontramos nenhum sentido confortador nem promissor nas palavras do Cônego Miguel durante sua homilia na missa de posse do Pe. Marcos, quando ele se referia à transferência do Pe. Luiz para outra Diocese, atribuindo-a aos "desígnios de Deus". É incoerente e inconseqüente esta afirmativa porque todos nós sabemos que o projeto do Reino está sendo orientado e implantado pelo Evangelho e, assim, não pode oferecer espaço para o autoritarismo ou para o desprezo.
Quanto ao novo pároco, entedamos que a ação do Espírito no homem é misteriosa e imprevisível: Francisco era rico e superficial, tornou-se quem é. Clara também. Inácio era soldado e nobre no mundo, transformou-se e é companhia de Jesus. Oscara Romero era impássivel e representava a Igreja descompromissada, hoje mártir. Tomás Becet, amigo do rei era o próprio Arcebispo da corte, hoje é santo. Helder apoiou até o integralismo, hoje é a reserva profética, régia e sacerdotal da nossa Arquidiocese.
Rezemos para que o nosso novo pároco seja revestido do Espírito Santo, bem como noso Bispo, José!
Havia uma vila. Na vila 4 Igrejas. A parte mais antiga da vila ficava no centro. A primeira Igreja lá. Alta e imponente, era como a catedral; sua torre com sino de bronze quase tocava o céu. Ao redor desta Igreja moravam os senhores da vila: o prefeito, o coronel, o banqueiro, o dono da fábrica, o dono do supermercado e o dono do engenho, quando vem à vila.
A segunda Igreja fica mais afastada do centro, num bairro mais simples, onde moram o professor universitário, o médico, o engenheiro, o advogado. Ela é mais plana, de tijolo aparente, não tem torre nem sino, mas tem um crucifixo bem grande por trás do altar, quase não tem imagens de santos, é ampla e arejada.
A terceira Igreja fica mais na periferia da vila, lá onde moram o comerciário, o bancário, a telefonista, a recepcionista, a professorinha da escola. Esta Igreja é uma capela. Foi um arranjo na casa da vila da Cohab que os moradores fizeram, mas ficou bem bonitinha.
A quarta Igreja fica quase fora da vila, numa invasão que apareceu num terreno baldio da fábrica que fechou porque o dono resolveu aplicar o dinheiro em "dolar" e no "over". Na época foi uma briga danada, mandaram a polícia desocupar a área porque uma imobiliária estava especulando; depois de duas mortes e muita confusão, ainda estão em litígio, mas como é ano de eleição, o prefeito deu uma trégua para o pessoal celebrar num barraco de madeira ( quando não chove) que de dia é escola e de noite é onde se reúnem as lideranças da favela. Lá mora o filho da empregada doméstica, o pipoqueiro, o motorista, o guarda, o pequeno traficante, a prostituta, dona Zefinha que vende refrigerante na praia, um mendigo e o office-boy do banco.
O padre da primeira Igreja só gosta de celebrar mesmo é em latim, com cantos gregorianos. Padre é padre, leigo é leigo. Mulher de véu. Mini-saia e decote, Deus o livre. Papa mesmo, dos bons, só até Pio X. Concílio? De Trento para trás. E o Vaticano II? - É a segunda casa do Papa? Pergunta ele desorientado. Padre casado: é o próprio demônio em pessoa; coisa de Lúcifer para destronar a Igreja triunfante.
O padre da segunda Igreja respirou aliviado quando não precisou usar mais batina. Acha que pode utilizar alguns leigos para distribuir a Eucaristia e dar o Curso de Batismo, mas sob sua supervisão. Vaticano II foi um santo Concílio, a Igreja já abriu mão de suas prerrogativas ao máximo. Leigo é leigo, pode, orientado pelo padre, ajudar muito. Sem a obediência à hierarquia não há salvação. Não mistura religião com problemas do dia-a-dia.
O padre da terceira Igreja parece que é meio maluco, talvez comunista disfarçado. Mora lá no fundo de quintal com mais algumas pessoas. Se veste que nem um deles. Nem parece padre. Falam até que toma cerveja e fuma! Reúne o pessoal para falar do governo, do custo de vida, da pobreza e da exploração. Coloca Jesus até em política e sindicato! Só casa, batiza e faz primeira comunhão quem é da comunidade e se prepara durante o ano inteiro. Acha que só há Igreja se houver comunidade e só há Bispo se ele estiver inserido na comunidade. Concílio? O Vaticano II foi o vôo inicial da Igreja nas asas do Santo Espírito, para chegar ao Reino ainda falta muito.
A quarta Igreja nem padre tem. O que existe são uns leigos que se reúnem e pregam a Palavra. Alguns ministros distribuem a Eucaristia que levam da terceira Igreja. Esses leigos têm umas idéias muito "atípicas", por assim dizer: Jesus está onde há comunidade de pessoas que acreditam n'Ele. Esse negócio de Bispo, Cônego, Abade, padre, não tem sentido pois a hierarquia do serviço não reconhece divisão de cargos. Leigo é laos, Povo de Deus (aí incluso Padre, Papa, Bispos, Abades, Freiras, etc.)! Tudo é Povo de Deus, a distinção é de serviço, não de prestígio ou poder. Concílio? Para que? Igreja é o Povo de Deus que ora e trabalha na construção do Reino, espalhado no mundo todo, de qualquer raça ou religião!
São 4 Igrejas, um é o Pastor. São 4 filhas diferentes amadas pelo Pai. Tanto uma irmã tem a ensinar à outra! Na verdade uma só, olhada em quatro tempos diferentes. É uma senhora que se mira em 4 espelhos: num reflete sua vaidade e sua riqueza; noutro sua sabedoria e inteligência; noutro ainda tenaz perseguição ao ideal do noivo, Jesus e no quarto espelho ela vê sua juventude que apesar da avançada idade ainda a impulsiona rumo ao desconhecido, ao novo, ao futuro....
O SEMINARISTA
MARÇO - 1992Aquela vontade doida que deu de repente de seguir Jesus.
Ah! Esse Jesus...eu estava tão quieto na minha vidinha, plantava roça de meia, com meu pai e meus onze irmãos. Era muito trabalho e sofrimento mas dava pr'eu ir vivendo. Já estava gostando de Rosa.
Naquele dia fui até à cidade e entrei na igrejinha do Brejo onde aquele padre tava falando das coisas tão bonita de Jesus...deixar tudo e seguí-lo...um sonho!
Tive coragem, falei com o padre. De repente já acordo aqui neste seminário de cidade grande. Tão diferente do que eu sonhei!
Lembro da cara zangada de meu pai e das lágrimas alegres e saudosas de minha mãe. Os irmãos me abusando, talvez um pouco de inveja: cidade grande, aprender, estudar, voltar um dia, quem sabe? Meu sonho mesmo era fazer esse povo acordar, mostrar Jesus, a união, a partilha, a libertação dessa situação de miséria. Rosinha? Um rosto na ternura do tempo de infância.
O bispo me mandou para cá. Ele me disse que não era o ideal mas este seminário no qual me encontro era o único disponível no momento. Estou custando para o meu bispo algo em torno de trezentos e cinqüenta mil cruzeiros por mês, não sei porque tanto...
No seminário dos meus sonhos, nós comíamos na mesma mesa com nossos mestres, partilhando a mesma comida farta, assim como Nosso Senhor, mas aqui não! Há dois tipos de mesa, uma para os professores e o reitor, com comida que benza-te Deus, dava para fazer uma festa, enquanto nós, hein? Não sou luxento não, mas o que dói é a discriminação e a pouca comida.
Sonhei com um seminário aberto, onde estaríamos livres para viver também no meio do povo e retornando, partilhar nossas alegrias e experiências com os irmãos e os mestres, como Jesus fazia com seus discípulos, no entanto aqui não posso nem telefonar livremente para meu pai, pois alguém pode ecutar na extensão; não posso sair para lugar nenhum, e agora nem mesmo praticar esporte para não vermos os corpos uns dos outros.
Não há nenhum trabalho pastoral se realizando no meio do povo. Lembro até do meu curió, preso, presinho na gaiola...
Sonhei em saber, para conhecer melhor o Cristo nas escrituras e conhecendo-o reconhecê-lo no meio do povo. No entanto aui, só O conheço toda semana na benção do "Santíssimo". Ele também não está no rosto do oprimido? Quanto ao saber não é querendo falar não, mas não aprendemos nem português direito pois não há professor dessa matéria, no entanto tem um chato dum francês que vive esnobando a gente como se a cultura nordestina fosse inferior à cultura européia...Cristo é irmão entre as culturas também. A situação tá tão séria que estão misturando a gente do 1o ano com o pessoal do 4o ano, não estou entendendo mais nada!
Meu Deus, me acuda, não deixe morrer esta semente que o Senhor plantou no meu coração, naquele dia, lá na minha terra....
Uma mãe barroca pode gerar um filho artesão (não foi essa a primeira profissão do Nosso Senhor)?
Por que o novo incomoda tanto? Por que nosso impulso primeiro é o de rejeitar o novo, o diferente? Por que quem se acha bem instalado na situação tende tanto a impedir a caminhada do futuro e a se apegar à falsa segurança do antigo?
Miremos sempre na própria Igreja, que apesar de avançada na idade, tal como Sara, gera sempre um Cristo Novo, através do Evangelho, nas comunidades de ressuscitados!
Uma Maria barroca pode gerar um Cristo novo? Na teologia joanina, Maria representa aquela comunidade, resto de Israel, que aceitou e aderiu a Jesus Cristo. O povo antigo, com sua cultura milenar mas que se abre ao eternamente novo (o Evangelho é sempre boa nova), Jesus. Esse caminho gera a vida, a renovação.
Da antiga comunidade centenária de Boa Viagem, a Pracinha gerou a Igreja Nova. O Jornalzinho A Pracinha, que tanto serviu de voz à nossa comunidade, gerou o Igreja Nova, que agora caminha também além de nossas fronteiras!
Os seguidores de Cristo sempre se entenderam como carismáticos. Isto é, agraciados pelos dons de Deus, pois "carisma" significa "dom". O dom fundamental no cristianismo é a orientação de toda a vida para Deus. Esta orientação para Deus deve gerar uma visão do mundo, em que todo ser humano é assumido como filho de Deus, e considerado como irmão e pessoa merecedora das mais altas considerações. Com isto o cristão situa a vida humana no âmbito de Deus, e busca proporcionar ao homem a dignidade que lhe é devida por causa de sua relação com o bem supremo, fonte de todos os dons. Assumir esta visão do mundo e compreensão do homem denomina-se de conversão. Esta situa tudo que existe e acontece no âmbito da providência de Deus. Sempre se ensinou no cristianismo que a constância nesta visão da realidade, e sua consequente prática de vida, é um dom de Deus, que se chama fé. A fé, portanto, exige compreensão, consciência, razão, prática de vida. A fé sem obras é morta. Palavras sem ação são canhão sem bala.
Observando a história do cristianismo, verificamos que os cristãos, desde o início, procuraram ser fiéis aos seus dons de fé. Começaram a reunir-se em comunidades, a cuidar dos órfãos (menores abandonados), dos doentes, dos pobres, dos escravos, dos ignorantes. Surgiram assim orfanatos, hospitais, asilos, hospícios, irmandades, escolas, universidades...Disso se podem gloriar os cristãos, pois durante séculos os únicos profundamente preocupados com a dignidade do ser humano no Ocidente foram os cristãos. É claro, houve desvios de muitos que, embora se denominassem cristãos, não entenderam de forma adequada o Evangelho de Jesus Cristo. Mesmo assim, quem durante séculos, quase exclusivamente, fundou escolas, hospitais, asilos, orfanatos, universidades, no Ocidente, foram os cristãos, que procuraram ser fiéis aos carismas da fé.
O verdadeiro cristianismo não se vive dentro de Igrejas, mas na vida real. A Igreja é apenas o lugar em que comunitariamente se assume o compromisso de viver o cristianismo na vida real, e se busca a força de Deus para tal. O resto é superstição, curandeirismo, charlatanismo, ilusão. O cristianismo é prática de vida no dia-a-dia dos acontecimentos. Uma prática de vida fruto da compreensão e orientação de tudo para Deus, que se manifesta em imagem na situação do homem concreto. Na medida em que o cristão se empenha para desvelar essa imagem de Deus entre os homens ele é um cristão carismático.Há muito tempo atrás viviam duas tribos tupis na densa mata. Caçavam quando tinham fome, pescavam o que podiam comer e comiam dos diversos frutos, sempre enterrando os caroços...
Viviam harmoniosamente em partilha.
Depois de algum tempo, surgiram alguns forasteiros, das terras do além-rio, que interessados em alguns minerais amarelos das terras da selva, começaram a trazer "novidades" de fora, do primeiro Mundo, como eles mesmo chamavam; eram espelhos, facas Tramontina, alguns revólveres, miçangas, um rádio de pilha (que não funcionava porque não havia estação transmissora) e uma chaleira de alumínio que apitava quando a água fervia.
Os indígenas ficaram deslumbrados!
Os forasteiros incentivaram então a que eles produzissem seu artesanato, sua cerâmica, em quantidade; que se plantasse muito; que caçassem muito, pois o excedente trocariam por mercadorias do primeiro mundo, de última geração. Quem produzisse mais teria mais coisas importadas para comercializar.
Os mais fortes, mais ágeis, trabalharam mais. Os mais sabidos dentre eles, colocaram os outros para trabalharem para eles. Os doentes, os velhos e as viúvas ficaram de lado. O pajé, de início, quis reclamar, mas os estrangeiros lhe presentearam com um vídeo-cassete de sete cabeças, uma filmadora portátil e um carrinho de pilhas que abria as portas por controle remoto, em troca o pajé impôs à tribo uma religião onde mascavam coca, ficaram alucinados no culto, adoravam à Tupã com gritos e sussurros, tinham visões e falavam em línguas, tudo bem, desde que não escutassem nem entendessem a língua da própria tribo, ou melhor, a língua dos que ficaram de fora da força produtiva.
O Deus dos estranhos, segundo eles mesmos, mandou que criassem entre as duas tribos um grande mercado. O Livre Mercado. Lá o deus iria atender às necessidades de todos! Haveria fartura para todos, pregava os pregadores. Quanto mais se produzir mais fartura há de vir.
Um velho esclerosado pergunta: e a gente, como é que fica? Mais que rápido um forasteiro responde para a tribo reunida: - É apenas um detalhe que será resolvido quando a tribo tiver uma superprodução.
Há coisa de mais ou menos cinco anos passados, desde que o Livre Mercado expandiu-se entre as tribos e os estrangeiros, visitei a aldeia. A impressão que eu tive foi terrivelmente diferente da primeira vez.
Além das grandes clareiras escuras de terra queimada, o Livre Mercado agora negocia as madeiras nobres, lotes de terra, concessão a de exploração de minérios, mulheres indígenas e curumins, sem falar nos animais ditos exóticos.
O pajé vive confortavelmente numa tenda árabe importada de Miami, com ar condicionado e tudo. O morubixaba vive alcoolizado quase todo tempo, dirigindo uma de suas D-20, os filhos drogados. A grande maioria da tribo, trabalha dia e noite numa terra que já não é sua. Os velhos e as velhas mendigam nas portas dos prostíbulos dos garimpeiros.
Uiara se foi do rio. Jaci à noite chora lágrimas de prata escondida atrás da fumaça. Tupã calou.
O Livre Mercado?
Cada vez maior. Forte e insaciável. Promete a salvação do Homem. Tudo consome, como ídolo voraz...
CRISTO E CÉSAR
FEVEREIRO/MARÇO/ABRIL - 1993De todas as obras primas que se compõe a Bíblia, de todos os seus textos, todos os capítulos e versículos, uns se sobressai de sobremaneira: o diálogo de Jesus e Pilatos, legítimo e exemplar representante de César oposto de outro Jesus, legítimo representante de Deus . Dois reis, duas propostas de vida.
O primeiro se baseia no rei da conquista, da hierarquia em todos os níveis, na lei estabelecida. A autoridade (dynamis) de César se baseia na força das armas, na força do direito (não implicitando justiça ), na obediência e organização.
No segundo, Jesus nega qualquer semelhança com o modelo anterior pois mesmo admitindo sua realeza (hê basleia hê eme) explica que esta não pertence à mesma ordem (organização) sócio-política, pois se assim fosse seus guardas o defenderia; porém seu reinado está no mundo e sua autoridade (Exusia) está inserida no pleno poder lhe concedido pelo Pai, mediante sua própria liberdade de exercê-lo, não para dominar mas para servir à humanidade.
A realeza de César é sustentada pela organização político-econômica (senadores, tribunos, governadores de províncias, legados, artesão, sob uma base escravagista), pela organização militar (generais, legiões, comando de 1000, de 100 homens, frota naval, estradas entrecortando todo império, aparelho burocrático estatal sofisticado para arrecadação tributária e distribuição de despojos de guerra) e pela organização religiosa (Asiarca, espécie de Papa universal da religião oficial, certa liberdade de culto nos povos conquistados, rede de sacerdotes mantidos pelo Império para manter o culto ao espírito do Imperador, uma religião voltada para fora da realidade, desvinculada dos problemas sociais).
A realeza de Jesus é instaurada pela formação de comunidade, através da fraternidade, da partilha, da liberdade de cada um e do serviço. Exclui portanto toda forma de dominação, todo culto pessoal, toda ambição e principalmente toda ligação com a realeza de César, pois são visceralmente opostas.
César continua inquirindo a Jesus: " Tu és rei ? Onde estão os teus seguidores ?
Analisando a situação pastoral nestas terras de Olinda e Recife, com os olhos frios da percepção crítica histórica, se é que se pode não Ter paixão neste assunto, a próxima etapa na construção da estrada por onde o Povo de Deus vai caminhar, será muito árdua.
Mais que um verdadeiro pastor, o novo bispo terá que adicionar às sua qualidades, a de um construtor sobre ruínas, a de um alfaiate exímio para cozer a túnica rota com os fios da fé e ainda há de Ter a lucidez profética de quem enxerga no âmago de uma realidade de morte sinais de vida e projetar estes sinais para o futuro do caminho.
Ao olharmos ao nosso redor, que vemos?
Padres comunistas agitadores mandados embora, dirão os usineiros e os coronéis, contentes consigo mesmos.
A ordem reestabelecida na observância cega à hierarquia da Igreja, resmungarão os mortos vivos de uma religião de museu e sacristia.
Agitador , tristeza e pesar, gritarão os sem terra, órfãos da Pastoral destruída.
Tortura, prisão e morte, gemerão os pobres desassistidos sem justiça e Paz
O vazio do não saber, do não aprender, do não meditar, denunciarão em uníssono os seminaristas de Olinda e Recife.
A felicidade de uma religião de louvor, concordarão os descomprometidos com a realidade do Cristo marginalizado, anunciando curas milagrosas para a próxima Segunda-feira.
O caos de não se Ter uma única diretriz pastoral numa diocese que definha, rezará pedindo misericórdia a grande maioria dos padres.
O novo bispo caminhará de mãos dadas com o ancião, que na sua lucidez e dignidade de mais de oitenta anos, trás no peito o sol nascente e certamente após o intervalo de escuridão, a estrada será alumiada logo, logo , adiante...
O TRABALHO, O CAPITAL E A ESPERANÇA
JULHO - 1993
O trabalho e o capital são como marido e mulher. Um depende do outro. Um alimenta a vida do outro. Se um tem a função mais específica do esposo, o outro tem a da esposa. A força de ambos deve ser equilibrada entre si de tal maneira que cresçam juntos para a estabilidade e felicidade da família.
Imaginem uma família onde só o pai tivesse direito de crescer, de se alimentar, de ficar forte, às custas do sacrifício da mãe, que a cada dia definhasse, exaurida nas suas forças pela labuta diária.
O contrário também pode ser terrível, quando a mãe se torna dominadora e sufoca o pai, abortando em seu ventre a liberdade da família.
A família onde o Capital é supervalorizado em detrimento ao Trabalho, é uma família fadada ao genocídio, pois com o passar do tempo o Capital se torna um verdadeiro ídolo para onde tudo converge e que tudo consome, tudo suga, com uma voracidade cada vez maior, gerando em seu redor a violência, a miséria, a servidão e a discórdia.
Um irmão "sabido", servo fiel do capital, que concentra tudo em suas mãos, colocará os demais na subserviência escravagista, trabalhando cada vez mais e ganhando cada vez menos. Para manter-se uma "família" neste modelo, vão se tornando cada vez mais necessárias, forças de repressão, tais como: religião, exércitos, sistemas de arrecadação tributária mais complexos, sistemas políticos mais controlados e atualmente sistemas de comunicação social mais e mais sofisticados.
O que tem Deus a ver com tudo isso? Economia , política, mídia, impostos, e estas coisas mundanas?
Ora, sendo Deus uma família equilibradíssima, uníssona, geradora da vida do Universo, tem a ver com tudo, e principalmente com tudo o que diz respeito à manutenção desta vida gerada.
No dia em que tivermos a justiça e a partilha como contrato nupcial do matrimonio do Capital com o Trabalho, certamente deste casamento nascerão filhos da Esperança!
UM PASSO DA RESSURREIÇÃO
FEVEREIRO/MARÇO - 1994
Uma pegada na areia quente do deserto. Aliás, a última pegada de uma série quase infinita de pegadas, muitas delas apagadas pela ventania. Mas a última pegada, quase solitária, lá estava. Queimando as entranhas dos viajantes que ali paravam curiosos.
- É de um homem. Vejam o tamanho do pé.
- Deve ser de um peregrino, pois o ponto da areia ferida pelo cajado acompanhou as pegadas até aqui! Exclamou o segundo.
- Cadê o resto das pegadas, para onde foram? Não pode ser! Ardia a mente do cientista.
- Foi um espírito de luz, encarnou por um momento e desencarnou, pois já devia estar purificado. Procurem mais adiante, ele deve voltar, talvez numa criança, talvez numa mulher, mas procurem mais adiante.
- É coisa do demônio! Diz a senhora com um terço na mão, fazendo o sinal da cruz.
- Certamente era um santo, foi carregado pelos anjos! Exclama sua irmã. O cientista explica à minúscula platéia indiferente, que deve Ter sido a acomodação de alguma placa tectônica, cuja fenda engoliu o dono da pegada e tudo, e uma tempestade de areia provocada pelo deslocamento de uma massa de ar quente, encobriu os sinais do cataclisma. Contente consigo mesma, monta no jumento e vai embora.
A sua irmã não foi embora. Se ajoelhou e rezou olhando para o céu, buscando uma estrela, cujo brilho lhe fizesse ver um santo sendo carrgado por dois anjos.
O primeiro viajante vai embora indiferente.
O segundo, ah o segundo...olha, e olha. Nada sabe, nada explica. Volta então sobre as pegadas do peregrino e vai procurar sua origem. Talvez elas o levem a encontrar a si próprio.
O CREPÚSCULO DOS DEUSES
NOVEMBRO - 1994
Estamos vivendo, assistindo e participando das últimas cenas de um filme que a realidade nos projetou.
O ocaso de uma era da qual nós os espectadores fomos também os protagonistas. A era de muitos deuses: cada um com sua função ou carisma específico, como num Olimpo organizado, que prometia felicidade para todos os mortais.
Alguns desses deuses se sobressaem mais. O Qualidade Total, que permitiria aos mortais aproveitar seu escasso tempo de maneira otimizada, evitando todo e qualquer desperdício e aumentar a produção a níveis nunca antes atingidos. Esse deus carrega duas maldições: a quem não lhe prestar o culto ele exclui da comunhão com o Livre Mercado e aos que se tornarem seus fiéis seguidores, os transforma em máquinas de produção computadorizadas.
O Livre Mercado, deus da função de distribuir a produção em lugar da Eucaristia. Para o seu culto, ele exige cartão magnetizado, saldo altíssimo e o sacrifício do trabalho dos excluídos; oferece em troca, tecnologia de ponta, saúde internacional, educação em Oxford ou Cambridge, cobertura e carros importados. No entanto, a maldição que carrega é a violência, extrema violência e insegurança que cresce ao redor de sua mesa.
Outro deus muito importante é o dos Espíritos Pentecostais. Esse deus, tem a função de controlar e apaziguar toda e qualquer reação contrária ao sistema administrativo divino do Olimpo. Promete à grande massa, acesso fácil à mesa do Livre Mercado. Usa na sua liturgia, hipnose, emgôdo, misticismo e muita mídia. Sua maldição é a que obriga aos seus seguidores caminhar eternamente nas trevas, carregando pedras para os templos dos outros deuses. O deus dos Espíritos Pentecostais têm um irmão chamado deus dos Vegetais Verdes.
O deus dos Vegetais Verdes promete ar puro, uma fauna e flora exuberantes, até luxuriante, vida longa e saúde natural. Exige em seu sacrifício dietas vegetarianas e idolatria aos animais da natureza, em detrimento à mulher e ao homem pobre. No seu culto encontramos pessoas de todas as idades rodando em círculos infinitos nalgumas praças, em sentido contrário aos ponteiros dos relógios, numa tentativa de retardar Cronos, deus terrível de outro Olimpo. Vegetal Verde, usa ainda: pirâmide, pedras energizadas, fluídos, miasmas, incenso, horóscopo, ritos ocultos, OVNis, e muitas outras formas de expressão cabalística.
Sua maldição é a de que seus seguidores morram ainda em vida, pensando terem vencido Tanatos, irmão de Morfeu e parente de Cronos.
Ao apagar das luzes desta ribalta, no vácuo do desaparecimento desses deuses, cabe a nós, cristãos, mostrar a razão de nossa fé e a atualidade da mensagem do ressuscitado, antes que, de novo, o Olimpo fabrique outros deuses e os projetem na tela da história.
JESUS NÃO É REAL
MARÇO - 1995
Algumas observações me fizeram pensar e escrever sobre este tema, aparentemente contraditório para um cristão. "Deus salve nosso Real", "Jesus é o Real", "Louvado seja nosso Real", e assim por diante; além de que houve um sentimento generalizado, quase milagroso, atribuindo ao plano econômico (mais um) ultimamente lançado no Brasil, um poder messiânico de resolução instantânea de problemas crônicos da nação, tais como a fome, a miséria, a criminosa distribuição de renda, o analfabetismo e tantos outros, já por demais conhecidos.
Seria um falso julgamento, não enxergar que houve uma pequena melhora na classe pobre, onde a inflação, que fez a riqueza de tantos ricos se multiplicar obscenamente, deixou sua voracidade um pouco mais lenta.
Na miséria absoluta, onde o essencial nem existe, e que uma multidão de irmãos brasileiros continuam mergulhados, o Real nada fez. Dizer que R$ 70 ou R$ 100 resolveu a situação de alguém, no mínimo é um acinte à inteligência de quem ouve e um deboche a quem recebe. Dizer que estava pior, realmente estava, mas daí para se dizer que está bom, há um abismo intransponível, igual ao de Lázaro.
O que me deixa intrigado, é o fato, de que antes, a tudo se imolava para a Dívida Externa; por onde anda ela?
Agora, tudo se imola ao combate da Inflação.
O que me deixa preocupado, são exemplos como o do México e da Argentina, modelos de sucesso econômico que agora transparecem o seu lado cruel.
O que me deixa perplexo, é o fato de se querer aposentar um trabalhador apenas aos 58 anos, quando a média de vida de um nordestino pobre é de 56 anos. É o fato também, de se aumentar escandalosamente os salários de funcionários graduados dos três poderes e se vetar o aumento de R$ 15 reais para o Salário Mínimo.
Realmente nestes pontos, Jesus não é do Real.
Não é preciso ser nenhum profeta para prever conflitos sociais intensos a partir de julho, não é preciso ser nenhum profeta para prever que a classe média que não tem nenhum projeto próprio a não ser o de atingir a riqueza da classe A, sem a ilusão da ciranda financeira, se deprimirá com sua mediocridade; que os ricos continuarão escandalosamente mais ricos e os pobres mais miseráveis; que o governo não assentará nem a metade das famílias dos sem-terra que prometeu assentar e que se este país não resolver pelo menos 10% dos seus problemas sociais ao final do 1-o ano se tornará mais um grande fiasco de esperança.
Realmente nestas perspectivas, Jesus não é do Real.
A realidade de qualquer plano que queira passar pelo crivo do ser e agir cristão, tem que ser uma realidade de partilha e fraternidade. Uma realidade onde todos tenham acesso à mesa da fartura, da alimentação, da saúde, da educação, do lazer, da liberdade, da autodeterminação de sua cultura e re-ligião.
Só um modelo assim, pode-se dizer sem medo de errar ou blasfemar, um plano assim ,é realmente um plano da realeza de Jesus.
MAIO - 1995
No rastro da Nova Era, da Pós-Modernidade, do holístico, do Mercado Global, muitas estruturas filosóficas e religiosas estão surgindo. O fenômeno do Pentecostalismo que grassa em várias seitas e até entre as denominações mais tradicionais, como na própria Igreja Católica, tem arrebanhado uma multidão de fiéis, que sem uma resposta às suas angústia existenciais, se deixam seduzir por tudo aquilo que lhes promete a solução imediata de seus problemas pessoais, principalmente no que concerne ao econômico e à saúde.
No entanto, a parte da classe média que ainda não foi tocada, nem se deixou seduzir, criou um vácuo a ser preenchido. A partir da própria experiência do empobrecimento que a empurra cada vez mais para a classe pobre, a angústia de saber que milagres não acontecem para enriquecer ninguém, de saber que profissões e modelos tradicionais estão cada vez mais desvalorizados e o mercado mais competitivo e não há um "inimigo", nem mesmo um modelo alternativo para se combater ou se amparar, a classe média é um campo fértil, perigoso, se não explosivo, mas estopim e faísca.
Para preencher este terreno, surgiu há algum tempo, baseado na filosofia e doutrina da nova época, e ainda usando técnicas sofisticadas de persuasão e engajamento, um movimento que promete aos seus seguidores mais fiéis, atingirem um grau de remuneração compatível com os melhores rendimentos do" 10 Mundo " sem trabalharem, sem esforço, sem deixarem suas atividades profissionais tradicionais. Enfim, a felicidade plena do Capitalismo!
A técnica usada pela doutrina é inteligentíssima. Na medida em que você faz uma rede de pessoas que vendem/consomem produtos, na verdade uma pirâmide (nossa velha pirâmide) , você ascende a um grau tal, que mantendo esta pirâmide em funcionamento, não teria mais problemas materiais. O tempo exigido é pouco. A liturgia é muito eficiente. A doutrinação é maciça, praticamente 24h por dia, as técnicas de grupo muito semelhantes a qualquer religião, com testemunhos, palestras, cantos, palmas. Os pouquíssimos que atingem o topo da pirâmide ( na verdade pensam isto, pois o topo está muito mais ao Norte ) dão testemunho pessoal do sucesso. São os sacerdotes do culto. Mas, o mais interessante, é a maneira de como conseguiram mascarar a competição interna, o que dá uma falsa sensação de comunhão, cada um trabalha e incentiva a sua base da pirâmide, para que produza cada vez mais. Sem coação visível, sem atritos, sem traumas, sem direitos trabalhistas, sem impostos, como numa grande irmandade.
O preço da construção de uma pirâmide, qualquer que seja, os pobres já o sabem. A classe média irá descobri-lo, espero que logo. Como diria Sinatra, this is my way.
POR UMA NOVA ESPIRITUALIDADE
JUNHO/JULHO - 1995
Na verdade há um grande vazio às perguntas mais profundas do homem na época atual. Um vazio enorme de respostas; tão grande que caberia toda a humanidade e ainda sobraria espaço para as próximas gerações.
Na verdade as perguntas são as mesmas de sempre, desde o início da eternidade:
· A que viemos ? · - Quem somos ? · - Aonde Vamos?
A resposta é o que nos escapa. As religiões e formulações filosóficas clássicas, nada nos dizem, apenas acenam com um talvez, que o tempo e as novas conquistas das ciências deixaram sozinho em sua dúvida. Por outro lado esta mesma ciência que tantas respostas às necessidades imediatas de quem lhes tem acesso oferece, fica cada vez mais calada frente às três perguntas capitais.
As "novas" correntes panteístas, na verdade jogam o Homem de volta à natureza e o encurralam no universo holístico dentro do qual nem mesmo seu próprio espírito jamais sairá.
Breve, muito breve mesmo, as seitas pentecostais, inclusive da denominação católica, terão que absorver o estrondoso fracasso de ver seus seguidores a perguntarem e sentirem na pele, a falta dos milagres prometidos, pois estarão se vendo, com os mesmos males e a mesma falta de recursos financeiros de sempre, enquanto seus líderes enriqueceram de maneira sobrenatural.
O grande desafio dos cristãos sérios deste fim de milênio é mostrar ao mundo a resposta de Cristo a estas três perguntas. É criar uma moral baseada na ética, é criar uma liturgia viva, é recapitular a doutrina e iluminá-la com os conhecimentos e aspirações atuais, para que clareie o futuro.
Corremos o sério risco, se assim não o fizermos, de ver a religião cristã se transformar em peça de museu e ser encenada às vezes no futuro, como aula de história para um pequeno grupo de estudantes. E mais grave ainda, se não conseguirmos dar este passo, a enorme massa dos excluídos que o sistema neo-liberal fabrica diuturnamente certamente não ficará de braços cruzados, esperando morrer de inanição enquanto meia dúzia de opulentos se banqueteia ao redor da mesa do mercado de consumo.
Peçamos mais uma vez ao Santo Espírito de Deus , que animou até agora a caminhada dos cristãos,(apesar dos cris- tãos ), que ilumine o caminho da História rumo ao Reino e que abra o coração e a mente de todos os homens e mulheres afim de torná-los peregrinos e ansiosos pela posse definitiva deste Reino.
A GRAVIDEZ DE SARA
AGOSTO - 1995
Está na hora da Igreja gerar o homem de amanhã. Há de fazê-lo como fez Sara. Avançada na idade, já sem esperança, pela graça de Deus, através de Abraão.
Abraão seja o Homem de fé. O ancião do antigo Povo, que esperou contra toda expectativa. Que lutou, que sofreu, que se desinstalou, que viu as promessas realizarem-se já no final da vida. Seja a humanidade dos crentes deste século.
Sodoma e Gomorra não faltam, mas também Melquisedec está presente. A descendência de Abraão e Sara, agora no finalzinho deste milênio, deveria gozar já da plenitude da liberdade e da abundância, mas por nossa falta de fé, como num sorriso descrente de Sara, talvez o Isaac ainda vá ter que ser sacrificado aos muitos Baals que andam encastelados nas cidades a cercar perigosamente a planície dos vales de Canaã.
A gravidez de Sara se faz urgente, pois sinais de vida nova se espera desta que completa 2000 anos. Do seu útero ressequido, irromperá uma criança que será sinal de um novo tempo e de uma nova esperança.
Há que se proteger, nutrir, ensinar e zelar por esta criança, pois dela depende o sonho de uma humanidade cansada e sem sonhos. Há que ensiná-la a viver com Ismael e sua mãe, embaixo da tenda. Há que se mostrar a ela, que Deus poupará toda a criatura, mesmo que apenas ela seja justa. Há que ensiná-la que toda cerca e todo muro deve ser derrubado, todo castelo e toda torre esvaziada, toda tenda habitada e que jamais haja escravo e senhor, nem oprimido nem opressor, nem fome nem dor, e que não haja pobre entre os que hão de vir.
SETEMBRO - 1995
"Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho; ele era sacerdorte do Deus Altíssimo.Ele pronunciou esta benção: - Bentido seja Abrão pelo Deus Altíssimo que criou o céu e a terra, e bendito seja o Deus Altíssimo que entregou teus inimigos em tuas mãos.E Abrão lhe deu o dízimo de tudo. Gn 14,18.
Quando na história do povo de Deus, já no início, surge esta figura misteriosa de um rei-sacerdote que oferece a Deus pão e Vinho, nos faz refletir sobre a caminhada deste povo e o significado do dízimo. Em toda sagrada escritura nenhum ser humano chegou a tal dignidade, sacerdote e rei. Nem mesmo Davi, que era rei e profeta, nem mesmo Moisés, que dentre todos os homens, foi o único que falou com Iahweh face a face.
Muito sabiamente, os Padres da Igreja viram na sua figura um prenuncio do próprio Jesus, que em sua plenitude é por excelência rei, sacerdote e profeta.
Salém, segundo alguns, seria a cidade de Jerusalém; porém numa visão mais abrangente poderíamos ver nela a prefiguração da Jerusalém celeste ou mesmo da Igreja Triunfante, onde o Cristo já habita e reina.
O dízimo é algo realmente intrigante nas circunstâncias históricas de Abrão como também o é, as ofertas de pão e vinho. Apesar do acordo de Abrão com os reis aliados para salvar seus parentes, nada há que justifique a oferta ao misterioso rei de Salém da décima parte de seus despojos como também, do culto naqueles tempos imemoriais, não há registro histórico de oferendas de pão e vinho por vitória em guerras, muito pelo contrário, as oferendas eram sempre de vítimas humanas.
Embora a Igreja esteja bem longe de atingir o modelo perfeito do Reino, mas ela carrega no seu ventre a sua semente. Como uma mãe infiel ao esposo, mas grávida, precisa ser nutrida, protegida e amada.
A instituição do Dízimo, como uma prática sagrada e rotineira na Igreja Católica, precisa urgentemente ser refletida. Embasamento teológico não falta; porém quando se trata de recursos materiais, ela se comporta como de maneira velada, muitas vezes dúbias, o que leva à pouca transparência na maioria das vezes.
Em várias instâncias a reflexão do Dízimo precisa ser elaborada:
. A nível paroquial, levando os católicos a uma maior participação, tanto na coleta dos recursos quanto na utilização destes.
.A nível diocesano, para que a transparência penetre como um sopro em toda parte e mostre a realidade, na maioria das vezes de penúria, levando muitos bispos a situações de vexame, como por exemplo no acompanhamento de seus seminaristas, tendo que pedir dinheiro emprestado para poder ordená-los.
.A nível de CNBB, fazendo com que esta discussão chegue ao congresso e crie-se mecanismos junto à Receita Federal para que as contribuições possam ser deduzidas do IR por exemplo.
Creio que temos muito que aprender com nossos irmãos evangélicos tradicionais, pois estão muitos anos à nossa frente neste assunto essencial para a vida de qualquer Igreja, pois mesmo os santos mais ascetas necessitam de comer, vestir, tomar medicamentos, ir ao médico, estudar.
A prática correta do dízimo por parte de nós católicos, certamente levaria ao crescimento de uma Igreja muito mais viva, participativa e responsável. Vejo por aí um caminho de abertura para uma comunhão plena entre leigos e clero e instituições e comunidades. Na verdade, a primeira e vital liberdade, é a independência econômica. Sem ela, nada é possível.
O DÍZIMO DE LEVI
NOVEMBRO -1995
A questão do Dízimo na Igreja Católica, há que se tornar objeto de discussão e aprofundamento por parte de todos os cristãos. No texto dos Números, fica clara a situação da tribo de Levi, que foi toda dedicada ao sacerdócio e não teve parte na distribuição da Terra de Canaã. Sua dedicação seria exclusiva ao serviço do Templo, ao Culto, às questões de Justiça, Saúde, de Educação, Doutrina e Moral. O espírito que regia esta disposição me parece ser o de propiciar uma autonomia para o pleno exercício destas funções. Porém com o passar dos anos, houve uma concentração de renda, poder e prestígio tamanha, que no tempo de Jesus de Nazaré, o Templo de Jerusalém empregava cerca de 26% de toda população de Israel e se constituía na mais sólida instituição financeira da época, em todo o mundo. Por isso não é de estranhar as fortes investidas de Jesus contra esta instituição, embora o mesmo Jesus e seus companheiros pagassem os tributos legais, mesmo com certa ironia do Mestre. A questão hoje é como a Igreja como um todo deveria trabalhar o Dízimo. Sua arrecadação e sua aplicação. Há de se meditar vários pontos delicados da questão: a quantidade de impostos que o cristão e a cristã já pagam é muito grande; na verdade a partir da separação Estado e da Igreja, principalmente depois da Revolução Francesa, a função social que antes era basicamente um monopólio da Igreja (quem dera todo o monopólio fosse este) passou a ser do Estado; toda cristã e cristão são sacerdotes na Ordem Eterna de Jesus; o culto a Deus, dispensa a prior, o templo, as liturgias, a intermediação de terceiros, pois o novo culto é celebrado no coração de cada batizado, sem querer com isso, desmerecer as legítimas intermediações humanas e comunitárias; outro fator a ser meditado, é a enorme ramificação de ordens, associações, "santas"casas, ordens terceiras etc ... que estão inseridas no corpo sociológico da Igreja, acumulando verdadeiras e escandalosas fortunas em terras, bens móveis e imóveis, acervo cultural em obras de arte, ouro e prata, que nata têm a ver com Pedro, mas sim com Constantino. Como conciliar tudo isso? Enquanto a realidade de uns sacerdotes é o luxo e a ostentação nas suas ordens e mosteiros ( fazer voto de pobreza nesta situação deve ser um prazer), a realidade da imensa maioria de padres diocesanos, ditos seculares, é de extrema penúria, tendo paróquias ou comunidades que não conseguem nem mesmo um salário mínimo para seu sacerdote. Nunca é demais insistir: é urgente se pensar o Dízimo, não como uma ação isolada de alguns, mas como o pensar e o agir de todo um corpo, para que aqueles que tenham recebido o ministérios da síntese dos dons e carismas, possam trabalhar na missão dignamente, como todo e qualquer filho de Deus desta terra, que anseia a implantação definitiva do Reino!
COMUNHÃO E PODER
JANEIRO/FEVEREIRO- 1996
Todo exercício do poder, neste mundo, mesmo aquele que é exercido para o serviço de uma comunidade, se assenta sobre dois princípios básicos:
1. Competência de quem o exerce
2. Aceitação de quem o recebe, ou respaldo das bases.
Sem estes dois princípios, ou mesmo sem um deles, o poder se anula ou tem que recorrer aos extremos de leis coercitivas, para demonstrar autoridade.
Na Igreja, também é assim.
Observemos pois, o que acontece na nossa Arquidiocese, de Olinda e Recife:
Há cerca de dez anos vive mergulhada numa profunda crise de autoridade, que afeta a todo corpo da Igreja, inclusive não se restringindo ao âmbito local. Isto porque, não se firmou a competência da cúpula e muito menos se atingiu as aspirações da base, daí estar se usando e abusando das medidas autoritárias, inadmissíveis num mundo moderno onde as relações humanas devem ser vividas no respeito mútuo, e muito menos na esfera de Igreja que se propõe a ser luz e sal para este mundo. O Evangelho de N.S. Jesus Cristo é substituído pelo Código de Direito Canônico.
Como exemplo claro, neste começo de ano, os padres daqui estão sendo forçados a assinar um documento, no qual se comprometem como meninos do Jardim de Infância a "manter um comportamento edificante....estar em comunhão com as autoridades arquidiocesanas...participar das reuniões do clero..."e por aí se vai, num delírio de poder inaceitável.
Uma pessoa adulta, que abraça o sacerdócio de livre e madura opção, já é bem crescido para exercer seu ministério sacerdotal e abraçar seus compromissos de comunhão e confiança com seu pastor e auxiliares, e jamais serem forçados a eles.
Pasmem os leitores e leitoras, que o sacerdote que não assinar tal documento, não receberá o uso de ordem ( uma espécie de licença para exercer as funções de sacerdote ) ! Coisa de ditadura sul-americana de décadas passadas.
Seria o caso de pedir a estas autoridades, que assinem um documento, comprometendo-se a dirigir o Povo de Deus desta Arquidiocese conforme exorta o Evangelho, sempre em Comunhão.
O que é ainda mais grave, é que alguém possa imaginar, que um relacionamento baseado neste tipo de ação, possa construir alguma coisa concreta, a não ser a farsa e a mentira. Alguns irão certamente recusar a assinar, pois não querem ser tratados como crianças irresponsáveis; estes continuarão sendo perseguidos. Outros assinarão para evitar problemas, outros ainda, para escapar de punições. Na verdade ninguém assinará, como cristão adulto, batizado, crismado e ordenado. Assim viver-se-á o reino das aparências e da hipocrisia. E o Reino de Deus, onde é que fica ?
MAIO - 1996
Lendo a reportagem publicada na Revista Veja (Ed. Abril, de 22 de maio de 96), onde é enfocado o estado de saúde, os feitos, os altos e baixos da administração e do pastoreio do papa João Paulo II, e sendo ainda mês de seu aniversário natalício, surgem-me algumas reflexões: Sem sombra de dúvida, a contribuição de João Paulo II para a Igreja e o mundo são relevantes. Foi o papa que mais viajou, mais utilizou os meios de comunicação social, mais divulgou a Igreja enquanto instituição. Contribuiu para a derrocada do comunismo de Estado, e alterou profundamente o rumo da história, na medida em que encarnou os anseios de vários grupos mais conservadores e de várias forças produtivas, culturais, religiosas e econômicas. A história certamente será sua juíza aqui na terra e o Senhor da história, o acolherá de braços abertos no seu Reino. Espero que ainda por muito tempo esteja entre nós.
Gostaria de salientar no entanto, um ângulo ainda não bem focalizado da contribuição de João Paulo II, para a história da Igreja e do Povo de Deus: pela sua atividade incessante, foi também o papa que mais se expôs ao público de todas as nações, e por isso mesmo contribuiu sobremaneira para demitificar a figura papal.
Vemo-lo agora em sua fragilidade, de saúde abalada, tendo que interromper orações e entrevistas. Vemo-lo caindo em público, submetendo-se à cirurgias, fraturando ossos. Vemo-lo muitas vezes impotente frente às decisões subterrâneas da Cúria Romana. Vemo-lo muitas vezes pregando no vazio, para uma platéia que lhe admira e lhe ama, porém que pouco dá ouvidos às suas palavras quando lhes fala de moral, sexo, ou meios naturais de contracepção, entre outras coisas. Vemo-lo tentando destruir a teologia da libertação, apoiando indiretamente o neoliberalismo, errando na escolha de bispos, por outro lado,evitando misticismo no culto a Maria, lutando pelos direitos humanos, e tantas e tantas ações, carregadas de contradições humanas.
É um papa mais humano que a figura de muitos papas. Sujeito a erros e acertos como qualquer um de nós, mas certamente também, um homem convicto do que faz e do que prega, coerente com sua consciência e corajoso ao extremo, não importando se o Areópago é surdo ou indiferente.
Um papa, que antes de tudo é um homem de fé, e por isso mesmo, entre sua fortaleza e sua fraqueza, transmite a presença de Deus entre nós.
JUNHO/JULHO - 1996
Chega aos nosso ouvidos o clamor dos formadores e dos seminaristas de Olinda e Recife. Além da intervenção contínua e improdutiva de D. Judite, irmã do arcebispo, além da precariedade do ensino e dos formadores e dos meios, além de tudo isso, reina o terror da Idade Média que cobre com suas sombras e augúrios sinistros, aquele secular estabelecimento: Dom José obrigou os seminaristas a terem um diretor espiritual cada um e a revelar seus nomes a ele próprio, para que os possa acompanhar mais estreitamente, além de pedir informações de caráter particular sobre alguns concluintes do seminário. Qual será o Nome da Rosa?
DEZEMBRO - 1996
Mas, há distorções gravíssimas envolvendo este assunto tabu.
Existe uma verdadeira perseguição camuflada e às vezes nem tão escondida, aos sacerdotes que durante sua vida encontram o amor, sagrado diga-se de passagem, por uma mulher e o chamamento, também sagrado, para constituir uma família, e tendo refeito suas opções, são alijados de todo o processo participativo da vida oficial da Igreja, mesmo com permissão desta mesma Igreja para contrair o matrimônio.
Que dizer dos padres, homens como quaisquer outros, que são obrigados a viver "abrasados" numa atitude contrária aos ensinamentos de Paulo ou mesmo mantendo relacionamentos secretos, ou ainda tendo de ilegitimar filhos obrigados pela própria instituição que prega a defesa dos mais fracos e dos excluídos, da família, da liberdade e dos direitos humanos.
Como admirar aqueles que fazem do celibato uma opção madura e consciente de homem e mulher adultos, no serviço a Deus através da dedicação exclusiva de suas vidas e suas forças, como valorizar este dom se entre tantos que assim o fazem, encontram-se misturados, os que são obrigados a fazer e os que fingem que fazem.
Também há questionamentos sérios, tais como: o celibato é maior que a Eucaristia ? Que pecado traz um padre casado, com permissão da Igreja, a não ser o de ter recebido um sacramento a mais ? Por que a Igreja aceita como padres, os pastores anglicanos e luteranos que resolveram professar a nossa religião e permitem que eles possam continuar exercendo seus ministérios tranqüilamente, casados e com filhos ? Será que Pedro, Tiago, André, eram piores porque eram casados ?
Nas mais recentes pesquisas de opinião entre católicos e católicas, em todo mundo, o celibato é visto como opcional, pela imensa e esmagadora maioria. Será que o espírito não fala pela maioria do Povo de Deus ?
Tenho plena convicção que no limiar deste novo milênio, esta e outras questões serão refletidas à luz do Espírito Santo e a Igreja poderá dar mais este passo no caminho do Reino.
MAIO - 1997
Triste Dolli com seu balido triste. Não queria ser teu pastor, nem te tosquiar. Mas haverá decerto algum pastor cego como o de Ezequiel que sonharia contigo multiplicada ao infinito até toda população da cidade. Igual, sempre igual. Sempre de cabeça baixa, deixando a tesoura da tosquia seguir o rumo, sem resistência. Apenas um balido triste, tua voz, resignada como numa oração de despedida. Triste Dolli.
Não queria ser teu presidente. Não Dolli, não queria. Mas há quem queira. Há quem venda o teu pasto, quem racione mais ainda tua ração, quem te reduza a água, quem exija de ti um aumento de lã, sem o qual serás excluída do redil. Não Dolli, eu não seria assim, teria pena de ti e ti chamaria pelo nome. Mas a quem tu segues calada, diz te levar para um mundo moderno e vende o teu pasto para te assegurar escola, moradia e educação, que nunca chegam.
Se tivesses um verdadeiro pastor ele te abriria as portas do redil e deixaria pastares livre pelos campos, descobrindo teus próprios caminhos e jamais, jamais mesmo, quereria fazer uma outra igual a ti, pois quando se ama, se sabe que não há ninguém igual ao outro.
SETMEMBRO/OUTUBRO - 1997
Havia dois pastores. Um bem mais velho que o outro. Chegado o tempo de um e apressado o tempo do outro, o senhor das terras e das ovelhas os mandou chamar.
- Meus filhos, contem-me suas histórias, pediu o senhor.
- Meu senhor, peço-lhe perdão, pois apesar de ter feito o quanto eu podia, juntamente com meus amigos, muitas ovelhas morreram de fome, muitos cordeiros sem pasto deixaram de ter esperança....- disse o pastor mais velho.
- Não te preocupes, pois o que fizeste, o fizeste com o coração e foi muito além de tuas forças. Vem descansar teu repouso merecido. E tu ? - pergutou ao mais novo.
- Excelência, cumpri rigorosamente o que manda tua lei. Purifiquei o redil, eliminei as más ovelhas. Quero lhe agradecer pelo poder que me deu e espero ter correspondido...
- Quantas ovelhas ficaram no teu redil ? - perguntou o senhor dos campos.
- Bem, senhor, eu creio que umas dez...mas todas obedientes.
- Que mais fizeste para agradar tuas ovelhas, que na verdade não são tuas ?
- Ah, fiz grandes coisas: coloquei-as todas em fila para a procissão nos dias santos, adornei as mais bonitas com vestes de anjo, juntei multidões em teu nome. Organizei-as de tal modo que já nem fazem mais barulho, são passíveis, passíveis....uma verdadeira glória.
- E as que foram expulsas, onde estão ? - insistia o senhor do dia.
- Não sei. Graças a Deus foram para bem longe e não perturbam mais. Nem ovelhas eram na verdade. Eram lobos disfarçados.
- E as que morriam de fome e sede ?
- Senhor, no meu redil, todas as que ficaram estavam bem seguras, presas nas cercas, gordas, bem alimentadas. Só aceitei as que podiam se manter.
Nisso, o pastor mais velho olhava para o senhor e orava baixinho, com um brilho nos olhos que parecia roubado das estrelas que começavam a surgir no céu.
- O que rezas meu bom pastor ? - perguntou o senhor.
- Rezo para que as ovelhas que recolhi no caminho estejam bem...
NOVEMBRO - 1997
São 50 anos de sacerdócio que agora completas. Anos bem vividos. Alegres, sofridos, serenos, às vezes agitados. São 50 declarações de amor a esta Igreja.
Vais agora até o Papa. Na minha oração e no meu sonho, tu chegarás a ele e lhe dirás baixinho, na capela onde concelebrarás com ele:
- Santo Padre, olha para aquela Igreja que está em Olinda e Recife. Dá-me uma mensagem de esperança para aquele povo que ainda persevera na esperança.
Então o Santo Padre te diria:
- Vai Osvaldo meu irmão. Como presente de tua dedicação e da dos teus irmãos sacerdotes, diga àquele povo que breve, muito breve, haverá uma grande festa. E todos serão convidados e uma grande ciranda dançar-se-á nas ruas de Olinda e Recife. Peço também, que dês um forte abraço em Hélder, meu irmão e irmão dos pobres.
A vantagem de se falar com um amigo é poder sonhar.
EM COMUNHÃO COM O BISPO, EM COMUNHÃO COM CRISTO
DEZEMBRO - 1997
Vale a pena aprofundar.
Teologicamente bispo é aquele que recebe a herança apostólica e tem o carisma especial de confirmar na unidade da fé, as diversas comunidades cristãs. Ele é um elemento da comunidade cristã, de homens e mulheres livres e batizados que aderem voluntariamente à proposta de Jesus. Como tal, a afirmativa do nosso caro bispo está plena de acerto.
Há, porém, casos em que o bispo não está em comunhão com Jesus. Nesse caso portanto a comunidade deveria fraternalmente, dialeticamente, tentar manter um diálogo com o bispo, até que esgotada todas as possibilidades e não havendo receptividade por parte dele, recorrer a uma instância maior, e no extremo caso de não se resolver, fazer a opção de estar em comunhão com Jesus, apesar do bispo.
Para exemplificar mais: na Idade média, houve casos em que um rico comerciante comprou o título de bispo para seu filho de apenas 9 anos, por alguns milhares de florins. Pasmem, 9 anos apenas !
Sem contar com enormes escândalos nos quais bispos estão envolvidos, como no caso da ditadura militar da Argentina, no de Paul Marcinkus e o banco Ambrosiano, no de outros bispos e arcebispos ligados à máfia siciliana, outros que violam testamentos de mortos, infelizmente tantos e tantos.
Devemos estar em comunhão cegamente com todos eles ?
UM OLHAR SOBRE A ARQUIDIOCESE
MARÇO/ABRIL - 1998
Estará mais para a Sexta-feira da Paixão, onde o roxo do sangue desoxigenado cobre os altares, que para o vermelho régio do Domingo Pascal.
Terá tido seus momentos apoteóticos, passageiros como uma breve tormenta, mas que se encerra em si mesmo. Terá sofrido dores que não de um parto, pois pouca ou nenhuma luz trouxe para o caminho. Antes terá sido dores de um agonizante.
Se a fumaça carmim tenta encobrir a ausência de perspectivas, um olhar mais profundo a dissipa:
O seminário no afã de ordenar a quantidade, acolhe egressos, não recomendáveis, de ordens religiosas. Sacrifica a qualidade. Urge uma visita apostólica. Se o maior está assim, que será do menor ?
O silêncio sepulcral é a voz do marasmo, pai legítimo da indiferença. Onde está a gloriosa Igreja de Olinda e Recife, que há algum tempo atrás fazia tremer aos ditadores de plantão ?
Por que já não se fala em ti nos jornais, na televisão, nas rádios ? Calaram a voz do profeta ?
Por que os filhos do ITER que agora são ordenados bispos, se desvencilham desta administração ? E mesmo aqueles que aqui passaram rapidamente, como num susto, saíram como entraram, sem nem mesmo avisar ? Por que o embaixador chamou o administrador para uma conversa urgente, e logo após o papa do Brasil veio conversar ?
Onde se encontra auxiliares capazes, que possam articular alguma coisa que não a delação e a perseguição?
Nesta Quinta-feira Santa, mais uma vez, alguns dos padres mais bem conceituados desta Igreja faltarão à Missa dos Santos Óleos, em sinal profético da falta de comunhão do clero com o senhor arcebispo. Mais uma vez, este, ansioso fará a contagem dos presentes, sacrificando a qualidade pela quantidade.
Um olhar marejado sobre esta que foi exemplo para o país e para o mundo, e agora inerte olha para o mar na esperança de esperar....
SANTO ANTÔNIO
JUNHO - 1998
- "Oh! Deus, que posso eu dar para te possuir ?" ( Sermão XV de Pentecostes )
- "A pobreza e a nudez cobrem os pobres; a abundância descobre os ricos" ( idem )
- "O lugar do homem é Deus" ( Sermão da Ascensão do Senhor )
- "O teu rosto oh! Homem é o outro homem. Assim como provês a ti mesmo naturalmente, assim deves prover ao outro" ( Sermão II da Epifania )
- " - Apascenta meus cordeiros ! Observe-se que foi dito 3 vezes "apascenta" e nenhuma vez "tosquia". Se me amas por causa de Mim e não a ti por causa de ti, apascenta os meus cordeiros como meus e não como teus. Procura neles a minha glória e não a tua, os meus lucros e não os teus....." ( Sermão da Festa de São Pedro )
- "Samaria é a Igreja cujo bezerro que é o bispo lascivo e petulante, de pescoço empoado e caminhando com a barriga proeminente, foi lançado à terra pelo Senhor como o bezerro de Samaria... ( idem )
- "Acontece algumas vezes tornarem-se gulosos nos mosteiros os que tinham antes vivido sobriamente em sua casa (...) o deus ventre tem, portanto, monges e cônegos que o servem fielmente, vivem indolentemente na Igreja do deus ócio. Não procuram orações secretas mas as orações dos ociosos. Não se ouvem entre eles soluços e suspiros de compulsão, mas risos, gargalhadas e arrotos de ventre farto..." (Sermão XXIII de Pentecostes ).
Alguns dados da vida deste homem deixam intrigados os historiadores atuais: por que não há nenhuma referência de Santo Antônio a São Francisco ? Por que ele pregava com tanta ousadia ( até para os dias de hoje ) e nunca foi queimado pela Inquisição ? Por que o povo o associou aos seus símbolos de fertilidade (casamento, noivado, colheitas, gravidez, etc...) ? Por que não há nenhuma biografia contemporânea sua ?
Vale a pena conhecer mais e tornar conhecida a vida deste homem, que dizia aos ricos e aos poderosos de seu tempo o que o povo sofrido e massacrado tinha vontade de dizer e não podia.
CARTA A PAULINHO
NOVEMBRO - 1998
Caro amigo, já faz um bom tempo que não conversamos. Hoje a saudade bateu e esta batida transformo em letras. Bato nas teclas.
Às vezes sinto um pouco de inveja de ti, uma santa inveja, se é que há invejas santas. Creio firmemente que estás feliz, já vivendo a plenitude daquilo que sempre almejamos por aqui.
E por falar em por aqui, as coisas não estão melhores do que quando tu nos deixaste, há mais de 5 anos. No país o povo escolheu novamente continuar o sistema neoliberal. Isto eu realmente não entendo, embora na verdade se contarmos com os votos nulos, em branco, e a soma dos outros candidatos, não seria uma vitória tão esmagadora assim. O desemprego piorou bastante,
e é um fenômeno tão cruel, que você nem imagina. Milhares de mães e pais de família na rua do desespero. As crianças brasileiras tem menos acesso às escolas que as crianças paraguaias. E as que têm, é tão precário o ensino, que jamais atingirão um mercado de trabalho especializado e competitivo. Na televisão o governo mostra cenas românticas de escolinhas do interior com professorinhas dedicadas, escondendo a miséria de salário e de condições de ensino.
A seleção "natural" não está nada natural. Para você ter uma idéia, surgiram ótimas vacinas contra doenças infantis, mas custam em média R$ 400,00 para completar a vacinação de cada criança, pois nos postos de saúde não existem. Morrerão as crianças pobres ou ficarão doentes e terão seqüelas eternas, enquanto as ricas, com a graça de Deus....Os organismos financeiros
( agiotas ) internacionais mandam o país cortar gastos na área da saúde e da educação e da segurança. Não temos mais um sentido de pátria, estamos vendendo tudo. Nunca pensei, meu amigo, em alguma vez pensar neste argumento tão gasto e tão usado erroneamente no passado. Agora, ele ganha uma conotação vital.
Essas coisas machucam. E a nossa Igreja ? Tu que já estás vivendo na Igreja gloriosa, pede pela nossa, pecadora como nunca. Lembras da paróquia da qual fostes expulso do templo ? Ela foi dividida em três fatias. Uma pobre, ficou para o lado da Barão de Souza Leão e foi dada aos Oblatos, tenho muita esperança neste resto de Israel. A fatia mais rica continua com o mesmo vigário que te expulsou e que num mesmo gesto celebrou tua missa de despedida desta terra. Ainda há outra, a da Pracinha, lembras ? Esperemos para ver.
Na arquidiocese, aquele período de expulsões violentas e desmonte de estruturas, passou, ou melhor, está mais sub-reptício, também pudera, não há mais ninguém para ser expulso e a autoridade teme a divulgação dos seus atos. Viu como estávamos certos em não calar ? Não há atividades pastorais de conjunto, pequenas iniciativas particulares apenas. Já não se fala mais na Igreja de Olinda e Recife, o nível dos padres novos, cai de maneira assustadora. O núncio modera, dizendo que isso é um fenômeno nacional.
Estou publicando meu terceiro livro, pena que tu não estás aqui. Fernandinho manda lembranças. Ele está muito decepcionado com tudo isso. Marcelo agora é avô. O Jornal tem crescido e está bem distribuído, não sei se tu o lês por aí, mas sei que irias gostar muito. Temo-lo publicado na Internet.
Tens visto Francisco? E Clara ? Dê um abraço neles. E quanto a ti, meu amigo, reza por nós, pois estamos precisando. Um grande abraço do teu amigo, Assuero.
A PÁSCOA DE JOSÉ
ABRIL- 1999
Eram esquálidos escravos, cansados, temerosos, assombrados até. Famílias e mais famílias. O pequeno Joseph nem sabia quem era Moisés nem os outros que iam na frente, só sabia que estava com muito sono e o sol claro já nem o deixava dormir.
Ele cresceu no deserto. Dia após dia, noite após noite. E quando já tinha perto de seus 43 anos, finalmente chegou ao destino e pôde descansar. Lembrança do Egito ? Quase nenhuma. Apenas o que seus pais contavam e os anciãos. A maioria já havia deixado suas vidas na travessia. As histórias eram terríveis: escravidão, poder absoluto do Faraó, religião de grandes templos e suntuosidade que dava suporte ao poder do Faraó, tudo era do Faraó, desde todas as terras do reino, os animais, as pessoas. Era permitido que trabalhassem nas terras em troca de um tributo da colheita e de animais e de jovens para o trabalho pesado e para a guerra, para sustentar o aparato religioso e bélico do Faraó. Nos tempos de guerra ou de grandes construções, a vida se tornava quase insustentável, os impostos eram altíssimos. Em troca o sistema garantia defesa contra invasores e certa ordem interna.
O deus que os pais de Joseph seguia era um deus diferente dos outros deuses. Tinha um nome: Iahweh (Javé), venceu todos os deuses do Faraó, e se preocupava pessoalmente com a sorte e o sofrimento de seu povo. Um deus que não teve dúvidas em intervir na história quando viu o povo sofrendo a miséria da mais dura escravidão. Não era um deus de filósofos, imaterial, que se deixava seduzir por cultos majestosos e cheios de pompa, nem mesmo por uma casta sacerdotal.
Agora aquele Deus iria orientar, através das lideranças naturais, como seria a vida naquele novo lugar, a terra que Ele mesmo havia prometido.
E Iahweh organizou aquele povo da seguinte maneira:
Primeiro fez uma reforma agrária, ampla. Deu iguais condições a todos, organizados por família. Os lotes eram inegociáveis, devendo passar de geração em geração. Aboliu a figura do rei. Rei verdadeiro só Iahweh. Aboliu a figura de sumo sacerdote. Nada de templos e liturgias suntuosas, pois a Terra inteira é o templo de Deus. Nada de exércitos. Simples e barato ! Nada de impostos.
A sociedade então ficou estruturada segundo os laços parentais. A usura proibida, nada de cobrar juros aos irmãos, nada de escravizar ninguém. A terra deve ter repouso de sete em sete anos, a natureza precisa respirar. As dívidas serão perdoadas automaticamente a cada ano jubilar. Para o culto a Deus, a arca passaria peregrina de tribo em tribo, um Deus peregrino entre um povo que foi peregrino. Quanto à defesa do povo, este se organizou de tal modo que todos os jovens e adultos teriam educação para se protegerem, a defesa feita por civis. Na guerra as lideranças surgiriam e comandariam este grupos e logo ao término voltariam para sua terra, para trabalharem, pois o risco de viver na ociosidade enquanto os outros trabalham é grande e quem pega em armas uma vez, tem a tentação de subjugar os próprios irmãos para assim viver.
Joseph pôde viver em paz por todo o resto de sua vida. Não havia ninguém rico nem ninguém tão pobre que perdesse sua dignidade. Quando havia alguma contenda tudo era resolvido pelos mais velhos da família e se extrapolava esses limites, havia os juizes escolhidos dentre os mais sábios das tribos. O ancião Joseph chegou a ver seus bisnetos crescerem nesta terra. O excedente da produção de sua família era negociado nos mercados das aldeias. Plantavam trigo e faziam um ótimo vinho, além da criação de ovelhas. Isso durou até 1030 a.C. Depois o povo vendo o exemplo do vizinho (do norte?) e ambicionando ter um rei .....bem que Samuel avisou.
Impossível ? Quimera ? Lenda ?
O negrinho José vai fugindo com sua mãe de um engenho de açúcar. Já faz mais de 2700 anos da história de Joseph. Vai para as bandas de Palmares. Lá, dizem, que existe uma terra entre as florestas onde há liberdade para todos, e que o que plantam, colhem para si mesmo, ninguém é dono de ninguém, ninguém passa fome nem dorme ao relento, e ainda sobra para trocar por roupas e enfeites e festejar...
O pequeno José vai caminhando, depois de 2935 anos pela estrada poeirenta do sertão do Nordeste do Brasil. Se ele soubesse da história de Joseph, acharia parecida a paisagem com o deserto. Caminha ele, sua mãe, seu pai e mais seis irmãos, e muitos e muitos retirantes. Seguem a um homem de barbas brancas, a quem todos respeitam e pedem conselho. Seu nome é Antônio. Ele prometeu que vai levá-los a uma terra em que mana leite nos vales e tem montanhas de cuscuz....
INGRATIDÃO
OUTUBRO - 1999
Pe. Osvaldo Machado completa 80 anos no próximo dia 3 de novembro. Muito a comunidade de Boa Viagem, agora tripartida, deve a ele. No longo período em que esteve à frente de seu rebanho realizou muitas coisas, especialmente com os jovens, com os casais, noivos. Deu plena liberdade aos leigos de se organizarem e trabalharem e jamais perseguiu alguém. Lembro-me dos dias longos e cansativos de trabalho após os quais ainda se reunia com os paroquianos até de madrugada na elaboração das atividades pastorais.
Deixou a paróquia em condições equilibradas e em plena atividade.
Depois que saiu, nunca, nunca foi convidado sequer para participar da festa da padroeira ou de outra qualquer celebração da paróquia. Nunca foi convidado para nada.
Sou testemunha também, que quando esteve "junto" ao arcebispo, sempre procurou ser uma porta ou uma ponte entre este e os seus colegas de presbitério, como no caso do Pe. Filipe Mallet. Por isso, também teve sua cota de perseguição.
Registramos aqui nosso carinho para um padre exemplar e muitas felicidades nesta data.
Perdoe pela "santa" indignação, do amigo
UM OLHAR SOBRE OS OSSOS
NOVEMBRO - 1999
Primeiro foi Terezinha, depois Antônio, depois o francês Vicente, pensaram também em trazer Bernardo, mas sairia muito dispendioso.
Fizeram festa para Frei Damião para reavivar sua romaria.
É interessante que esta prática de cultivar relíquias teve seu auge na Idade Média, onde cada cidadezinha da Europa, que se prezasse, tinha que ter alguma relíquia de santo para o local se transformar em centro de romaria e com isso aumentar o lucro dos comerciantes, especialmente dos vigários e cônegos.
Uma pastoral de mortos, isto é o que querem ressuscitar por aqui.
A nossa fé deve ser centrada em Jesus Cristo, a nossa prática deve ser a prática de Jesus Cristo, a nossa pregação deve ser a pregação de Jesus Cristo. Uma ação de vivos para vivos, que resgate a boa nova do Evangelho para os pobres que estão sendo enterrados ainda vivos, neste país que é deles também, muito mais do que dos banqueiros internacionais.
Terezinha, Antônio, Damião, Francisco, Vicente, Helder (graças a Deus ainda não fizeram esta traição com ele), devem ficar chocados, bem vivos de onde estão, pelo uso que estão fazendo dos seus restos mortais.
Vamos ser honestos com a memória deles e respeitá-los, fazendo o que eles sempre fizeram quando nesta nossa dimensão terrena: anunciar e agir como Jesus.
DE OLINDA E RECIFE
JANEIRO/FEVEREIRO - 2000
E
ra uma tarde de domingo, mesmo que todos os dias são domingo no céu e todas as tardes são tardes radiantes, e o Dom chegou-se junto a Francisco.- Meu irmão Francisco, como vão as coisas aqui no céu ?
- Ora, Helder, como sempre, está tudo perfeito. Tudo pulsa, tudo é vida, tudo resplandece e já começava a querer dançar, contagiado por tanta felicidade. Mas por que a pergunta irmão ?
- Por nada não disse o Dom querendo continuar.
- Pode falar insistiu Francisco.
- Sabe o que é ?...É porque agora vai haver a escolha do provincial dos irmãos menores lá daquela região de onde eu vim....
- Sim, é verdade...é uma região imensa, muito maior que toda a Umbria ...
- Pois é...é porque eu tenho um amigo muito querido por lá....
- Mas Helder, nossos frades tem total liberdade de escolher quem vai ser como um pai para eles por seis anos consecutivos...
- Pois é, eu sei bem disso....e sei também que você nunca quis que eles tivessem o título de superior, nem mesmo de abade, o que acho muito louvável, pois superior só mesmo Jesus e abade dá uma idéia...uma idéia de cargo vitalício completou o Dom.
- E quem é este irmão meu que é tão teu amigo?
- É um paraibano que vive há muito tempo em Recife, e que....
- Sei, Helder, conheço-o muito bem...não é aquele que vive envolvido com os movimentos leigos, andou sendo perseguido por umas autoridades de nossa santa madre igreja ainda peregrina....
- Esse mesmo completou o nosso articulador.
O pobrezinho de Assis mandou saber pelos anjos como andavam as prévias lá na primeira província do Brasil. Passado algum tempo ele voltou e relatou a situação ao Seráfico Pai (é assim que os anjos e os franciscanos tratam Francisco lá no céu):
- Tudo bem, os frades estão tranqüilos. O clima é de fraternidade. Há duas chapas, mas tudo indica que... (cochichou ao ouvido do santo ) vai sair como provincial. Mas tem lá um bispo que está fazendo uma campanha subterrânea contra este candidato, e ele nem de nossa Ordem é.
- Tudo bem, e obrigado disse Francisco, despedindo-se do mensageiro.
Nosso Dom ficou curioso.
- Helder, não te aflijas, pois tudo corre bem com o teu candidato...
E o resto da história nós já sabemos. Foi por isso que o holandês Pe. João seguidor de S. Vicente de Paulo, anunciando a eleição de Frei Aloísio Fragoso durante a missa na igrejinha das Fronteiras, disse que houve um empurrãozinho de D. Helder. Como ele soube ?
A IGREJA DAS QUATRO JANELAS
MARÇO - 2000
A janela da frente está quase sempre aberta, ela ilumina a entrada da igreja quando o povo está reunido em celebração e o lustre fica aceso.
A segunda janela é a da esquerda. Fica no nascente. Toda manhã é aberta pelos leigos que cuidam da limpeza da igreja. Por ela a luz do sol ilumina seu interior.
A terceira fica do lado direito. O interessante desta janela é que vive sempre aberta, e nela há um espelho do tamanho da janela. A luz é refletida da rua e não penetra por ela.
A quarta e última janela é a dos fundos. Está sempre fechada, e o cônego jamais a abre nem permite que se abra. É misteriosa e sombria, pois nada sai nem entra, nem se reflete por ela.
Certa vez vieram de muito longe um monge, um profeta e uma mulher penitente, do povo. Vieram para aquela igrejinha. O cônego foi recebê-los, pois chegaram quase ao mesmo tempo. Após as saudações iniciais os quatro ficaram observando o edifício.
- Interessante comentou o monge uma porta e quatro janelas, representa o próprio paraíso. Uma só é a porta, e difícil de se entrar por ela.
- É uma construção muito antiga, respondeu o cônego faço apenas conservá-la para que meu sucessor a receba em boas condições assim como a recebi do meu antecessor.
- Sábio homem de Deus assegurou o monge.
- Estou mais interessado nestas janelas falou por sua vez o profeta principalmente estou curioso por este espelho. E aquela que está fechada, vai dar aonde ?
- Eu também não sei. Está aí desde o início. Não mudei nada. Aquela ali apontou para a primeira é a do salão principal. Abrimo-la nas celebrações e festas, então o povo de fora pode ver por dentro.
- Ah, compreendo comentou o profeta se interessando pela resposta e as outras três?
- A segunda, dá para o salão onde os leigos se reúnem para discutir e organizar os trabalhos pastorais. Eles trazem os problemas lá de fora para serem analisados e resolvidos aqui. A terceira, aquela do espelho, está assim desde a construção. O espelho foi trazido de Roma e dizem que é miraculoso, quem fizer a peregrinação até aqui e orar em intenção desta igreja receberá uma graça. Há aqueles que dizem ter acontecido muitos milagres e terem visto anjos e até Nossa Senhora refletida no espelho.
- E a quarta janela ? Perguntaram curiosos, o monge, a mulher e o profeta ao mesmo tempo.
O cônego parecia embaraçado, mas respondeu:
- Aquela janela vai dar no porão. Há um corredor muito escuro.
- E o que tem no porão ?- Perguntou o profeta.
- Bem...no porão guardamos as coisas antigas que já não se usam mais, assim como algumas correntes do tempo dos escravos, cadeados, instrumentos de flagelação, material de exorcismo, bulas da Inquisição, o Index dos livros proibidos....
Ficaram calados por algum tempo. Depois entraram na igreja. O profeta notou que a pintura de dentro não estava tão boa quanto a de fora.
- É a falta de dinheiro. Diminuíram e muito as peregrinações. Estamos incentivando os milagres e as devoções desculpou-se o cônego.
Enquanto este falava, o monge concordava com ele e até se prontificou a ajudar na administração da igreja. O profeta quebrou o espelho enquanto a mulher peregrina, como só é permitido a todas as mulheres fazer na igreja, foi fazer uma grande limpeza e arrumação. Trouxe as coisas do porão para a sala do espelho partido, abriu a janela do porão e colocou as coisas dos leigos também na sala de celebração. O cônego quase desmaia com o que fizeram. Furioso ficou, ele e o monge.
Depois disso nunca mais deixaram nem profeta nem mulher entrar na igreja.
Ao amigo Juracy, que todos os sábados abre janelas...
DENÚNCIA
ABRIL/2000
E na formação do atual reitor, até quanto a Opus Dei estaria envolvida?
Tudo isso provocado pela diáspora que foi imposta pela própria Cúria Romana, e endossada por D. José Cardoso, com o fechamento do ITER e do SERENE 2, sem que nenhuma opção à formação fosse dada. Enquanto que o Seminário de João Pessoa, que acolheu com os enormes negros e fraternos braços de D. José Maria Pires todos os expulsos daqui, hoje não tem condições de receber mais seminaristas, pois está repleto e continua sendo um núcleo exemplar de formação.
Como justificar a Roma o próprio fracasso?
Enquanto o seminário dos beneditinos de Olinda conta com 117 seminaristas e o dos franciscanos com 53 ( abril de 2000 ), embora a quantidade não seja fundamental, estes seminários, tipicamente de religiosos, estariam aptos a formar padres diocesanos, engajados nas pastorais populares ?
Ficam os questionamentos, fica o registro das posições firmes dos nossos bispos que dignificam seus cargos pastorais, ficam nossas orações para que a casa materna de onde saíram mais além que padres, homens verdadeiros, nos dizeres de Pe. Arnaldo, volte aos seus dias de luz.
MAIO - 2000
A nós que ainda somos do tempo, nos é dado o ofício de tentar segurá-lo, amarrá-lo, torná-lo adolescente dócil, e, nessa tarefa vã, vamos seguindo seus passos fugidios, com uma pena molhada na tinta da história, demarcando suas passadas, procurando, na verdade, por nós mesmos.
A nós, nos é dado recordar, para que daí se ilumine os próximos caminhantes do tempo, e que o nosso tempo se consuma, quiçá, como a cera da vela acesa, que se transforma em luz.
Lembro-me do silêncio imposto ao nosso Dom, na última fase do seu tempo.
Como uma vela silenciosa, pôs-se a irradiar com sua simples presença um "jeito" de Igreja dentro de outro modelo imposto. Todos aqueles, que seguiam a utopia de Jesus no espírito de D. Helder, mantiveram-se unidos, atuando, produzindo teologia, produzindo liturgia e fraternidade, produzindo vida.
Como viajantes do tempo, nos é permitido lembrar Partênia. Silenciosa e virtual. Medieval e insólita paisagem, nascida do descalabro das mentes opressoras de uma Cúria com sinais de esclerose, e por isso míope. Quando D. Gaillot ousou desafiá-la e tornar-se com os pobres um porta-voz da esperança, esta mesma cúria, lhe retirou sua diocese, Evreux ( França) e o colocou na virtual Partênia. Não sabiam que a Igreja existe nos corações dos homens e das mulheres comprometidas com o ressuscitado, e que o templo verdadeiro é o coração de cada um (escutem o que Ele diz à Samaritana), e a verdadeira liturgia é o serviço ao necessitado ( escutem o que Ele nos diz do bom Samaritano). Não há, a priori, necessidade de templo de pedra nem de incenso para se cultuar o verdadeiro Deus, apenas do próximo necessitado.
Partênia saiu do delírio, criou alma, estruturou-se no Espírito e hoje congrega seus diocesanos em todas as partes do mundo, viva e atuante.
As duas Partênias irão se encontrar aqui em Recife, em agosto. A filha vem visitar a mãe. Uma no tempo, a outra na eternidade, uma só realidade.
Recebamos D. Gaillot de braços e corações abertos, que, como peregrino, vem saudar a diocese de D. Helder, o eterno Dom de Olinda e Recife.
CARTA AO PE. MARCELO ROSSI
NOVEMBRO - 2000
Caro irmão Marcelo, muita paz e muito bem.
Gostaria de lhe perguntar, antes perdoe minha ignorância, se nós católicos, a exemplo dos nossos irmãos Mórmons, já podemos batizar os falecidos ? Até onde o pouco que sei me levou, esta é uma prática nova na nossa doutrina. O Batismo de intenção, pelo que me consta, só é válido quando um vivo quer livremente, ou no caso das crianças, os pais querem livremente e ardentemente que elas recebam o batismo, e por uma circunstância grave, alheia à vontade das partes este batismo não é celebrado nos ritos de costume. Há também o batismo de sangue, que um neoconvertido recebe na hora da morte por estar dando testemunho de sua fé e querendo receber o sacramento, mas não há quem o administre naquela ocasião. O batismo de mortos, como o senhor está fazendo dos abortos, me é uma novidade, mas como seu bispo estava ao seu lado, presumo que seja alguma prática oculta, não acessível aos não iniciados...
Outra coisa que não entendo, perdoe mais uma vez minha ignorância, é quando o senhor atribui poderes maravilhosos de cura ao sal e à água. Na minha profissão, consideramos isso charlatanismo. Na religião seria feitiçaria. Quando se diz à uma senhora que ela errou na mão na quantidade de sal bento que colocou na comida do marido ( espero que não seja hipertenso ) e que ela deveria benzer toda a água da geladeira e fazer suco para ele, mesmo sem ele saber, ficaria abençoado e curado de suas mazelas....creio firmemente que seu bispo não sabe disso, mas se a Igreja passou a praticar magia, é também uma novidade para mim. Peço que perdoe minha ignorância e a compaixão que sinto destes meus irmãos e irmãs brasileiros, cristãos batizados, pois estão como ovelhas sem pastor.....
REFLEXÕES DE UMA VISITA ÀS RAÍZES CARIOCAS DE DOM HELDER - PARTE I
JANEIRO/FEVEREIRO- 2001
Em cada canto uma recordação. Fala-nos do seu amor pela ópera, pelo teatro, pelo ballet, pelos cristais. De suas amizades sinceras. Do irmão querido. Entre lágrimas e palavras. Cada "biscuit" é uma recordação.
Serve-nos um gostoso sorvete de milho, ali mesmo na cozinha. Puxo a conversa sobre o Dom.
- Uma das coisas que eu mais gravei, foi a alegria dele, quando chegou aqui, alegre, gesticulando, dizendo " maninha, hoje todas as religiões se encontraram, se deram as mãos..." "para mim a pior briga é na Igreja, a segunda é na família, ah ! Eu acho horrível..."
Pergunta-nos pela família, se estamos gostando do Rio.....
Fala-nos de sua admiração pela França, e que se o Dom soubesse haveria de ter providenciado para ela ir....questiona-se sobre a Internet...
JESUS E O MST
ABRIL/MAIO - 2001
O MST vem ocupando espaço nos meios de comunicação de maneira cada vez mais ostensiva. Nota-se uma ideologia por trás das notícias. É evidente que em tudo, e especialmente na mídia, há uma ideologia. Nada há no mundo que não contenha em si uma ideologia. Vale a pena lembrar que nossa cabeça está onde estão os nossos pés e nosso coração. Como seres humanos somos limitados ao tempo, ao espaço, ao grupo cultural, ao simbólico do nosso grupo e assim por diante. Uma visão histórica isenta de ideologia não existe, e portanto para cada fato há no mínimo três versões, sendo que, a que mais terá chance de prevalecer é a de quem a registra.
Vejam nos fatos recentes envolvendo esta questão do Movimento dos Sem Terra na nossa região, a contradição e o conflito ideológico (graças a Deus há este tipo de conflito, o ideológico, pois é através do conflito que a História se move), dentro de uma instituição multissecular como é a Igreja Católica: de um lado D. Jorge Tobias celebrando a Eucaristia em desagravo à propriedade privada e por outro D. Tomás Balduíno celebrando a Eucaristia em desagravo à miséria brasileira. O mesmo rito, a mesma instituição, pastores hierarquicamente no mesmo nível. Se eu pudesse perguntar a Jesus, com qual das duas missas Ele estava mais satisfeito, eu perguntaria.
Será que Jesus toma partido ? O Pai toma partido ? O Santo Espírito toma partido ?
Revendo as Escrituras olho e vejo um Deus que entra na História para libertar um povo oprimido, subjugado e escravizado, espoliado nos seus direitos. Liberta-o do jugo do opressor e o transporta para uma terra onde, como homens e mulheres livres, faz a primeira reforma agrária relatada nas sagradas letras. Do ponto de vista dos egípcios, era um povo que lhe devia obediência, trabalho e resignação, pois fora subjugado e em troca do seu trabalho se lhe oferecia organização estatal e segurança das forças armadas. Era o trabalho fundamental para seu sistema econômico. O Faraó no seu ponto de vista achava totalmente legal manter este sistema, estava na lei.
A Reforma Agrária de Deus foi simples e brilhante, transparente e lúcida. Lotes de terra divididos entre as famílias, inalienáveis, onde não havia senhores nem escravos, nem latifúndios, nem grileiros, nem superestruturas de poder. Deus passeava entre o povo sem fixar morada em templo nenhum, era um Deus peregrino, itinerante, na Arca.
A cobiça dos homens reverteu este sistema após mais ou menos duzentos anos, e criaram o Rei e sua corte, e seus impostos e seus exércitos e suas mordomias, e a terra passou a ser propriedade do rei e de seus amigos. O jugo tornou-se insuportável. Vale a pena ler a admoestação de Samuel sobre o que significava ter um rei, é uma das mais belas páginas de todos os tempos contra a tirania, que extrapola inclusive o plano religioso e ilumina a sociedade humana em todas as suas facetas.
Se eu pudesse perguntar a Jesus com qual das duas missas Ele estava mais satisfeito eu perguntaria.
Eu vejo em Palmares homens e mulheres fugindo pela liberdade e se organizando na mata. Não só negros, nem só índios nem só brancos pobres. Vejo brasileiros na primeira reforma agrária aqui das terras, que deveriam ser sem males ou um grande quilombola, fazendo brotar clareiras na cana opressora e gerando uma produção agrária que ia além do saciar a fome dos que trabalhavam a terra, até a comercialização do excedente.
Mais adiante eu olho e vejo o Conselheiro admirável, atravessando campos e coronéis, nos sertões do Brasil levando esperança e futuro para famílias inteiras dos Sem Terra e criando uma sociedade igualitária, combatente e trabalhadora. Também geradora de renda e vida para milhares de brasileiros apatriados dentro de seu próprio país.
Se eu pudesse perguntar a Jesus em qual das duas missas Ele estava mais feliz, eu perguntaria.
Mas só me resta abrir o Evangelho e procurar talvez algumas respostas.
Olho e vejo um barbudo, empoeirado pela caminhada, de sandálias, invadindo uma propriedade privada, em dia santificado, junto com seus companheiros e roubando espigas para se alimentar.....
E o Espírito Santo ? Fez-me abrir o Evangelho na página certa.
ONDE ESTARÁ O CRISTO?
JUNHO/JULHO - 2001
Há dez anos atrás, a comunidade católica de Boa Viagem foi presenteada com uma imagem do Cristo para sua igreja nova. Mestre Zezinho, de saudosa memória, foi o artista popular do interior do Piauí, homem pobre e calejado, das ms de quem nasceu o Cristo de madeira. Adquirido então pelo Conselho Paroquial daquela época.
Um Cristo de rosto e corpo marcados, como o homem e a mulher sertaneja. Forte, sofrido, de semblante questionador.
Onde estará agora?
Temo que se encontre jogado nalgum canto de porão, ou em alguma loja de usados, ou ainda ter virado cinzas ... talvez, pensando bem, tenha sido este um fim glorioso para ele ... tornado em cinzas ... num gesto penitencial para aquela comunidade. Lembro dele.
Talvez o Pai o tenha poupado de ver em que se tornou a administração daquela paróquia.
Agora a marcha inexorável, lenta e às vezes cruel da História, revolve os ossos e as cinzas e desenterra da lama os passos sombrios, os escombros, os acordos feitos nas caladas, às surdnas, os desencontros, os desencantos.
O Cristo sertanejo foi poupado, sem dúvida. Onde andará? Mesmo as suas cinzas, ou suas costelas arfantes, ou suas pernas toscas ... Agora que a História ilumina o passado recente, se revela para todos nós todo o processo, com detalhes, da expulsão do padre Luiz Antônio, do padre João Paulo, do padre Caetano... Agora se revela para nós, quase à luz do dia, que tipo de projeto de igreja se instalou naquela paróquia tão amada e querida por mim. As salas de aula das domésticas desativadas; o sub-solo, hoje garagem, onde seriam ministrados cursos profissionalizantes para jovens carentes, destruído em sua finalidade; a paróquia rota em três pedaços; os jovens escandalizados; escândalos, discórdias, sofrimento e dor.
Cada pedaço de chão daquele templo, cada banco, cada detalhe, contava um pouco da nossa história.
O Cristo foi poupado, mas a sua casa foi adulterada, enriquecida, enriquecendo a alguns. O templo está violado e profanado. Urge uma reparação penitencial e uma dedicação. Apenas o altar foi dedicado. Onde andarão as cinzas do Cristo, nesta quarta-feira tenebrosa de 10 anos? É hora da comunidade rasgar não as vestes, mas o coração. Exigir uma nova Igreja na igreja nova de Boa Viagem. Torná-la transparente, não apenas em vitrais, mas na carne do coração.
É hora do Cristo voltar!
O NASCIMENTO DO JORNAL
AGOSTO - 2001
Após sermos proibidos de escrever no jornal A Pracinha e D. José ter obrigado ao Pe. Luiz dissolver o Conselho Paroquial ( o que ele não fez ), resolvemos editar um jornalzinho independente que denunciasse esta e outras situações anticristãs pelas quais estávamos passando.
O primeiro número, do qual vocês estão recebendo o fac-símile, foi feito artesanalmente com os artigos recortados e colados numa folha em branco e depois fotocopiados. A distribuição era feita à porta da igreja nova de Boa Viagem (hoje N.Sa. de Fátima), ao término das missas.
Houve muitas reações; as desfavoráveis chegaram às vezes à quase violência, alguns quiseram nos agredir, rasgavam o jornal na nossa frente, embora isso fosse uma minoria. Jamais reagimos a estas provocações e fazíamos, mesmo sem saber, o protesto pacífico, como o que D. Helder chamaria de "força moral libertadora".
Descobrimos uma coisa importantíssima para as forças de resistência: a hierarquia opressora não tem nenhum poder sobre os leigos e as leigas organizados.
Foi um início de muito sofrimento e coragem. A mística que nos envolvia ( e espero que perdure ) é a mística dos profetas. Outra coisa que descobrimos agora, com toda esta situação da paróquia, é que infelizmente tínhamos razão.
Como não há ganho sem perda, podemos dizer de coração aberto e de alma larga: valeu a pena !
POBRES PERTURBAM A SANTA MISSA !
SETEMBRO/OUTUBRO - 2001
No último domingo estava chovendo muito, aliás, havia chovido toda a madrugada. Como de costume, fui à missa na igreja das Fronteiras, participar da celebração das 11h. Havia menos gente neste domingo. Há um almoço que é oferecido para os pobres que freqüentam aquela região. A cada domingo aumenta o número. Neste, estava especialmente cheio de mendigos, pedintes, bêbados, maltrapilhos, mal cheirosos.
Estavam quase todos dentro da igrejinha, e perturbavam. Pobre do Pe. João, não fosse sua paciência vicentina....e perturbavam.
Cheiravam à bebida e alguns à cola de sapateiro. Começaram a brigar entre si. Falavam palavrão. A certo momento uma mulher embriagada empurrou o companheiro que se encontrava nas mesmas condições e ele caiu sentado.
As pessoas começaram a se afastar. As senhoras e também as freiras que estavam junto, com razão, se afastavam. E a celebração continuava. Todos estavam incomodados, inclusive eu, que não sou nem pior nem melhor que ninguém.
Os pobres perturbaram, e como perturbaram !
Veio a hora da elevação e comecei a refletir:
Se a Eucaristia é um banquete que os pobres preparam para a humanidade, se a razão de existir da Igreja é o pobre... se indubitavelmente, a predileção de Jesus é o pobre, por que me sentia tão incomodado ?
Na hora da comunhão, ajudei a servir o banquete, segurando o cálice para que os presentes que comungavam molhassem o pão feito carne, e se alimentassem do mais profundo mistério jamais revelado: um Deus que se aniquila de sua divindade, e se oferece como um pedaço de pão e um pouco de vinho.
Tentei racionalizar a presença de Cristo nestas duas situações, de um lado as espécies consagradas, no outro, o conturbado meio daqueles pobres. Não consegui.
Reparei como nos aproximamos com reverência da eucaristia, com zelo e amor, ao mesmo tempo, como nos afastamos dos miseráveis.
Foi uma celebração conturbada. Para completar não houve quem cantasse. Lá fora chovia. Dentro o calor.
Talvez eu nunca tenha estado tão perto dEle como naquele dia.
NÃO PODEMOS EVANGELIZAR OS POBRES
NOVEMBRO/DEZEMBRO - 2001
Fico a questionar-me sobre a boa vontade, legítima, que os cristãos de classe média têm de evangelizar os pobres. São vários os movimentos e as atitudes individuais que intentam neste mister. Não só na nossa Igreja, mas em praticamente todas, cristãs e não-cristãs.
Vejo doações de refeições, roupas usadas, brinquedos usados, seguidas ou precedidas de preleções caridosas. Os pobres são os alvos fáceis deste proselitismo nosso de cada dia.
Não sei se estas atitudes mudam alguma coisa na vida deles, na nossa com certeza que sim, pelo menos ficamos com a consciência mais aliviada ou mesmo o inconsciente. Não vou colocar aqui a argumentação da doutrina social da Igreja nem as belas e contundentes páginas dos Santos Padres dos primeiros séculos, que afirmavam dentre outras coisas que "o que nos sobra é o que foi roubado dos pobres" ou mesmo que "não há fortuna honesta", não tratarei disto. O que faço é uma reflexão pessoal, pois eu mesmo muitas vezes participo destas tentativas de "evangelizar os pobres".
Estou plenamente convencido que é impossível tal evangelização porque vi inúmeras famílias ou indivíduos que nada tinham, nem o que comer de imediato, nem mesmo o que vestir, muito menos onde morar, nem onde fazer suas necessidades fisiológicas. Vi estas pessoas manterem a crença que são filhos e filhas amados de Deus, vi terem unicamente a esperança para comer e beber e vestir, e continuarem a acreditar na vida e em Jesus principalmente, mesmo sem religião, mesmo sem culto nem templo que os aceite. Não podemos evangelizar estes pobres, porque eles é que são o Evangelho puro. Nós é que temos que ser evangelizados por eles !
SHALOM - CARTA PARA SHOSHANA
MARÇO/ABRIL - 2002
Minha cara amiga, saudades. Muito tempo faz que você se foi, mas nem o deserto, nem a faixa de Gaza, nem as barreiras farpadas, nem as bombas, são grandes nem poderosas demais para nos impedir de sentir saudades. As estrelas são mais altas de que tudo isso. Lembras do quadro que te dei e pedi para só o veres quando estivesses em terra de Israel ? E que tu na mesma hora o abristes, perguntando se eu não conhecia a curiosidade das mulheres?
Quero que agora o contemples novamente. No silêncio. No centro algumas pinceladas coloridas do Recife e do Brasil, mas ao redor de todas elas, se o tempo não me rouba a memória, escrevi: quando a saudade apertar, olha nos olhos de uma criança morena, palestina, órfã. Lá estarás me vendo. Se a saudade apertar ainda mais, acaricia esta criança e a abraces, então estaremos mais perto, pois o mesmo Deus que nos fez, fez do mesmo barro e do mesmo sopro.
Temo pelo conflito. Temo por você, pois a guerra é anônima, sem rosto. O rosto de um amigo é eterno e nós o levamos para sempre conosco. Temo pelo desenrolar do ódio, como um tapete gigante das mil e uma noites sem lua nem estrelas, nem canto nem dança, nem vinho, nem banquete. Temo quando o mundo confunde o grande povo judeu, portador da Palavra, com um dirigente beligerante portador da morte. Temo quando se confunde o povo americano com um dirigente, de eleição questionável, ensandecido, a jogar suas bombas mutiladoras contra Deus e contra todos. Temo ainda, quando se confunde a nação palestina, irmã consangüínea pelo pai Abraão, com alguns terroristas sedentos de vingança. Já não se sabe mais quem é terrorista. O sangue de Abel clama por paz. Quanto mais sangue é derramado mais sangue é exigido.
Shoshana, se a saudade apertar ainda mais, adote a criança. Cuide dela. Sare suas feridas. Então eu saberei que existe esperança, aí eu saberei que as estrelas são do mesmo pó das areias do deserto e que não há distâncias intransponíveis.
Um beijo de boa noite.
Shalom
Nossa Senhora pede um santuário em Cimbres, Pesqueira
MAIO - 2002
Mês de maio. Tive um sonho, ou uma visão, não sei. Nossa Senhora me aparecia numa montanha e pedia para que fosse construído um santuário em sua homenagem. Imaginei logo uma grande basílica como a de Aparecida, mas ela recusou e me repreendeu, como se dissesse: "não aprendestes nada sobre mim e sobre meu Filho?" Caí em mim e fiquei a meditar sobre o que a senhora queria dizer. Depois ela continuou: "o santuário que eu quero que construam aqui é o santuário da verdade, da justiça e do respeito para com os pobres. O único santuário que o Pai, o Filho e o Santo Espírito habitam e se alegram é o coração do ser humano. Além do mais, este local de Cimbres é terra dos meus filhos e filhas diletas, os indígenas. Há muitos e muitos séculos que me apresento a eles na forma de Tamain, e os ajudo a respeitar os semelhantes e a terra". Minha visão continuou a falar: "Estou muito triste com minha Igreja, especialmente um Frei José, capuchinho, que compra a terra invadida e tomada dos índios!" A senhora estava indignada e chegava até às lágrimas.
Continuou: "Nunca apareci a este Frei, muito menos lhe pedi nenhuma construção de templo. Vejo que tramam contra o meu povo. Juntam-se políticos interesseiros, posseiros, empresários de hotelaria e turismo, empresas de obras, visando lucrar com meu nome. Basta! Há que se destronar os poderosos e despedir os ricos de mãos vazias, exaltar os humildes e cumular de bens os famintos. Deixem os índios em paz! Façam a Justiça, este é o santuário que eu quero. Só esse. O resto não vem de Deus".
Acordei do sonho, ou fora uma visão? Até hoje não sei.
Quando estiveres só
AGOSTO - 2002
Mesmo quando já teu pai houver partido para o desconhecido,
Mesmo quando tua mãe já não estiver, e teus filhos tiverem tomado o rumo da estrada,
Mesmo quando tua casa estiver em ruínas e teu país em escombros, e já não nascerem flores nos monturos,
Teus amigos já não houverem, e totalmente só,
Olhares a noite em teu redor e nem um só ruído sequer te perturbe os ouvidos,
E a solidão imensa, de vazio encher teu coração,
Mesmo assim Eu estarei contigo.
Quando tua fé te abandonar e tua prece secar nos teus lábios,
Quando já não houver quem fale nem quem escute, nem nenhuma luz nos teus olhos, apenas corpos amontoados numa imensa vala comum,
então arruma estes corpos lado a lado e cobre-os com um pouco de terra...neste gesto Eu estarei presente, arrumando os corpos, como um
derradeiro gesto de minha presença.
Para Paulo Teles de Menezes - * 20.06.20 - +27.07.02